segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Consagrados nomes da MPB ficam cada vez mais esquecidos pelo público


Por Marcos Niemeyer


>> Enquanto consagrados nomes da MPB levantam as mãos aos céus quando conseguem levar pelo menos quinhentas pessoas a uma de suas apresentações pelos mais diferentes pontos do país, o tal do "sertanejo universitário" e outras porcarias do gênero tomam conta de todos os espaços possíveis e já invadem até mesmo a Zona Sul carioca, berço da Bossa Nova — o mais importante movimento surgido na história da música brasileira.

Em recente apresentação no Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora — cidade que teve a primazia de sediar em épocas passadas cinco grandes festivais de música com a participação dos mais expressivos talentos  — um relevante cantor e compositor da MPB não conseguiu atrair mais que trezentos e oitenta espectadores ao secular espaço cultural.

Na mesma semana, essa coisa conhecida como "Safadão" botou cerca de sessenta mil pagantes no Parque de Exposição da cidade, com ingresso custando cerca de cem reais por cabeça. Se por um lado, a mídia é culpada por isso, se a cultura popular está decadente, por outro, os próprios medalhões da MPB também tem sua parcela de culpa no cartório.

A maioria deles, por exemplo, não interage com o público durante suas apresentações ou o trata de maneira fria e indiferente, não sabe praticamente nada do local onde estão (ou não o fazem por ego inflado ou má vontade), ou sequer, são capazes de dar um "boa noite" à plateia, não há um elo de ligação entre ambas as partes que não seja o próprio espetáculo, nada falam sobre os novos talentos da música (absolutamente desconhecidos pelo grande público), não criam mais nada interessante, etc.

Esse tipo de conduta, por mais importante que seja o artista, acaba gerando uma espécie de antipatia e distanciamento entre seus fãs e simpatizantes. Parece que eles não contam com uma produção eficiente ou assessoria de imprensa idem para instruí-los e alertá-los nesse sentido. Enquanto isso, os brega-popularescos e funkeiros sabem tudo e um pouco mais das cidades nas quais se apresentam.

Sem contar que eles brincam com o público, contam casos e "causos", dão cambalhotas nos palcos, sonoras gargalhadas, valorizam os contatos nas redes sociais, doam parte dos cachês para instituições de caridade, entre outras incontáveis maneiras de cativar quem os assistem. Brasileiro, independente de sua condição sócio/econômico/cultural, gosta dessa proximidade, algo  enraizado no DNA de cada um de nós. E nesse aspecto, ninguém pode negar, os representantes do lixo sonoro dão de goleada nos mestres mais icônicos da MPB.
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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Mídia transforma assaltante a mão armada em "cantor"


Por Marcos Niemeyer
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>> O fato é inacreditável e vem diretamente da Bahia, terra de Caymmi, João Gilberto, Jorge Amado e incontáveis outros grandes nomes da música, da literatura e das artes em geral. A situação reafirma o nível de degradação cultural e moral em que o Brasil está mergulhado até o pescoço. 

Ítalo Gonçalves, o "MC Beijinho", 20 anos, um bandido, com várias passagens pela polícia por uso de drogas e assaltos a mão armada em diferentes pontos de Salvador, resolveu assaltar recentemente três rapazes que caminhavam com seus celulares numa das movimentadas avenidas da capital baiana.

De posse de uma faca, o marginal ameaçou as vítimas exigindo que elas entregassem-lhe os aparelhos. Ato contínuo, fugiu às pressas, mas acabou pego por policiais militares que passavam na hora pelo local do crime. Ciente da impunidade, já que para esse tipo de delito o autor é liberado poucas horas depois ou no máximo em um dia, o sujeito sentiu-se em casa. 

E o que acontece em seguida é uma formalidade chamada de "audiência de custódia", em que os responsáveis pela medida perguntam ao fora da lei se ele foi tratado com "respeito" e "dignidade" pelos PMs que o prenderam. Caso o miserável diga que não, aí são os policiais que entram pelo cano e podem acabar (acreditem!) presos.

Pois bem. Debochado e visivelmente drogado, "MC Beijinho" desceu algemado do camburão na porta da delegacia vomitando um de seus funks, intitulado "Me libera nega".  Surge, logo após,  algo surreal e que não teria outro lugar propício para isso que não fosse o Brasil. Uma equipe da TV Itapoã filmou o sujeito mostrando sua "verve artística" e dali para as redes sociais foi um pulo.

A merda tem ocupado os primeiros lugares nas paradas de sucesso de norte a sul do Brasil e promete ser o "hit" do Carnaval baiano de 2017. Conforme a jornalista Anália de Jesus Moreira, Beijinho só vai sair nos trios elétricos de Salvador por conta do advogado que lhe presta assistência, já que anda encrencado com a lei em outras situações e impedido de circular durante a noite ou frequentar bares.

Até o compositor Caetano Veloso, de um passado artístico insuspeitável, mas que ultimamente tem deixado a desejar pelo apoio declarado e consistente ao lixo sonoro, disse ter "amado" a coisa e a tocou ao violão em recente show na Concha Acústica de Salvador, acompanhado pela cantora Teresa Cristina.

Nas FMs popularescas e nos toscos programas da TV aberta em todo o Brasil, "Me libera nega" é a sensação do momento. Por trás de tudo isso, sem dúvida, há o dedo de pseudo intelectuais cuja proposta é imbecilizar cada vez mais o povo brasileiro, principalmente as novas gerações.

Aliás, as esquisitices que vira e mexe costumam ganhar espaço na mídia como "obras de arte", também ocorrem em diferentes pontos do planeta. Não igual no Brasil, obviamente. Mas vejam o caso do artista plástico italiano Piero Manzoni que defecou em várias latas e expôs a merda através de concorridas galerias ao redor do mundo, transformando-se num "artista respeitável" pela crítica especializada.

Num sebo localizado no centro de Juiz de Fora encontrei há pouco tempo o livro "O imbecil coletivo", do jornalista e escritor paulista Olavo de Carvalho. Em um trecho da obra, o autor discorre sobre professores das faculdades federais brasileiras tido como "intelectos", que tratam de imbecilizar não somente a si próprios, mas também os colegas e alunos de maneira cíclica. Não é à toa que ficou fácil identificar um universitário, antes e depois da Federal.

No caso da merda sonora de "MC Beijinho", o professor e maestro de música popular da Universidade Federal da Bahia (UFBA),  Alfredo Soares, disse aos jornalistas que trata-se de algo "clássico" e "erudito" e merecedor de aplausos por compor a "estética da diversidade musical/cultural brasileira". Confira a performance do "artista".

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O rádio brasileiro à beira do abismo


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> O fim da MPB FM - 90.3 (1994/2017), surpreendentemente anunciado no dia primeiro de fevereiro último, reafirma não só a decadência da radiodifusão nacional, mas, sobretudo, o momento da mais absoluta fragilidade por que passa a verdadeira música brasileira.

A emissora carioca tocava, em modo automático, a música "Quem te viu, quem te vê", de Chico Buarque, na versão de Zeca Pagodinho. A canção foi interrompida e durou apenas um minuto e 21 segundos. Ato contínuo, a frequência no dial passou a ser ocupada pela maçante programação da Band News, que faz parte do Grupo Bandeirantes, dono da MPB FM. (quem tem saco pra ouvir noticia insistentemente repetida 24 horas por dia e entrevistas intermináveis?).

Especializada em resgatar e tocar o que ainda há de interessante na cultura musical do país, além de destacar novos talentos, a rádio carioca sucumbiu diante de sua inexpressiva audiência (o brasileiro, em sua maioria, só ouve o lixo sonoro atualmente) e da consequente falta de faturamento. Com isso, cerca de quarenta profissionais — entre jornalistas e radialistas, incluindo técnicos diversos que atuavam na emissora — foram sumariamente demitidos.

Rádios com o formato jornalístico — como é o caso da própria Band que agora ocupa a frequência da MPB FM —, da CBN e outras mais que tentam seguir o estilo, só conseguem respirar em função das minguadas verbas oficiais que recebem do governo e das prefeituras fazendo com que elas tornem-se meros porta-vozes de seus patrocinadores.

Em pouco mais de dois anos, pelo menos seis importantes emissoras de rádio foram fechadas ou vendidas para os espertalhões da fé em diferentes pontos do país. Apenas no Rio, as rádios Globo e CBN vêm demitindo dezenas de profissionais ultimamente.

A Tupi, por sua vez, não paga o salário dos funcionários há vários meses e nem tampouco o décimo-terceiro (deve dois anos do benefício). No mato sem cachorro, os trabalhadores da emissora estão em greve há  mais de um mês.

Para nós, profissionais da radiodifusão, todos esses golpes implacavelmente desferidos contra o setor, ameaçam varrer definitivamente do mapa aquele que já foi considerado o mais importante meio de comunicação da história. Por meio das redes sociais, ouvintes lamentaram o fim da MPB FM.

"Essa rádio é maravilhosa, não pode acabar", pediu um deles. "Vocês deixaram milhares de órfãos", disse outro internauta. "Única rádio que eu gostava de ouvir", escreveu mais um usuário na Web. “A MPB FM é uma grande contribuinte para a nossa cultura, valorizando a música e os artistas nacionais”, comentou a cantora Vanessa da Mata.
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Uma boa dica para quem visita o Rio


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com


>> Conhecer o Bar Garota de Ipanema (antigo Bar Veloso), que Tom Jobim frequentava, é rota obrigatória para aqueles que querem ver de perto um dos espaços de grande relevância para a história da Bossa Nova. Afinal, "Garota de Ipanema", a melodia brasileira mais conhecida, respeitada e tocada nos quatro cantos do planeta, aqui foi composta há cinquenta anos por Tom & Vinicius.

O bar, que fica no número 49, da Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema, na Zona Sul carioca, tem um chope geladíssimo e uma picanha na brasa acima de qualquer suspeita. Outro ponto frequentado por Tom, que  se estivesse vivo teria completado noventa anos no dia 25 de janeiro passado, era a Padaria Século XX, na Rua Von Martius, no Jardim Botânico, em frente ao prédio da Rede Globo.

Quando morava na Gávea, e se a fase era de inspiração, o maestro passava um dia sim e outro também pelo estabelecimento portando um garrafão de vinho e pedia ao Armando Ascenção, dono da padaria, pra que abastecesse o vasilhame com um chope "orquestradamente gelado" para colocar junto ao indefectível piano.

Certa vez, ao saber que um cheque de Charles Chaplin havia sido leiloado por uma fortuna, Tom pagou a despesa ao comerciante com um cheque de 100 mil cruzeiros, na época algo em torno de 10 dólares. "Pega essa relíquia porque um dia valerá milhões." No dia oito de dezembro de 1994, o maestro morreu de parada cardíaca após a retirada de um câncer na bexiga, em Nova York. Até hoje, o comerciante guarda o cheque a sete chaves. "Talvez um dia eu faça o leilão, não foi ele quem sugeriu?".

O legado de Tom Jobim ultrapassa as fronteiras da música. O grande artista deixou incontáveis textos, partituras e desenhos. Todo esse material foi reunido pelo Instituto Antônio Carlos Jobim (IACJ):  — e está disponível para consulta gratuita no formato de acervo digital Portal Jobim. A página iniciou o processo de digitalização em 2001.

O objetivo era edificar um espaço virtual que permitisse ao transeunte navegar pelas obras e registros que compuseram a vida do maestro. São quase dez mil itens, entre os quais músicas e vídeos que podem conferidos online, arquivos escolares, certificados, reportagens feitas a seu respeito e fotos pessoais. O Instituto Antônio Carlos Jobim fica na Rua Jardim Botânico, no bairro do mesmo nome, na Zona Sul do Rio. Dispensável dizer que vale a pena visitar também o referido ambiente.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Flautista Juiz-forano lança DVD na França


Por Marcos Niemeyer


>> Diz a lenda que "santo de casa não faz milagre". Pelo sim, pelo não, o flautista e compositor Estevão Teixeira, que encontra-se na Europa ministrando uma oficina de musicalização infantil de sua autoria, optou por lançar inicialmente em Paris seu primeiro DVD "Estevão Teixeira - em música". 

O local do evento ainda não está definido, mas deve ocorrer até o fim de janeiro na capital francesa. A obra, com oito canções autorais e duas em parceria, é uma compilação dos quatro CDs já gravados pelo músico e deve ser lançada no Brasil até março deste ano, durante apresentação em Juiz de Fora, onde o artista mora e leciona no Conservatório Estadual de Música Aydeè França Americano.

O músico é inventor do TEDEM — teclado Didático para o Ensino da Música, no qual criou inovadora metodologia de ensino/aprendizagem, com base na visualização das formas do teclado. Em Juiz de Fora, o projeto é Lei Municipal, sancionada e regulamentada. Na prática, porém, não funciona até o momento (coisas do Brasil).

Formado no curso de Bacharelado em Música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Estevão atou como músico contratado da TV Educativa, além de participar ativamente da noite artística carioca ao lado de importantes nomes da MPB — entre os quais Nico Assumpção, Vitor Biglione, Alberto Continentino, Paulo Malaguti (MPB4) e Nelson Faria.

O flautista trabalhou também como transcritor de músicas para o Songbook de Caetano Veloso e para cinco volumes da Bossa Nova produzidos por Almir Chediak. Estevão participou ainda dos trabalhos de transcrição de músicas do "Livrão da Música Brasileira", produzido por Toninho Horta — ao lado do qual apresentou-se durante recente show de ambos em Juiz de Fora. De quebra, o artista mantém atividades musicais regulares no Rio de Janeiro.

Com acompanhamento musical de Bruno Teixeira, Newton Vale, Jober Costa e Guto Gomes confira a performance de Estêvão Teixeira numa composição de sua autoria em homenagem à Mata do Krambeck, em Juiz de Fora:

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