>> Fui recentemente ao centro de Belo Horizonte deixar a filmadora na assistência técnica, cuja loja se localiza em um antigo edifício de estilo neoclássico. Quando embarcava no elevador com destino ao quinto andar, uma jovem das madeixas pintadas de amarelo me entregou vistoso e insinuante panfleto entre tantos que o transeunte recebe por onde circula.
Como tenho costume, até mesmo por educação, recebo esses anúncios de maneira gentil e agradeço com um leve sorriso ao responsável pela distribuição do material.
Habituado à leitura, costumo me interessar pelo conteúdo escrito desta engenhosa estratégia de marketing. O que eu acabara de receber anunciava um sex shoping instalado no décimo andar do prédio.
Sem pressa naquele momento, resolvi ir até o local verificar com minhas próprias retinas as novidades e tendências que embalam fantasias sexuais dos apaixonados.
Tinha de tudo um pouco: preservativos em variadas cores e sabores, órgãos genitais artificiais (alguns, pasmem! assombrosos de tão perfeitos), cremes lubrificantes, pomada japonesa, gel para penetração anal, bonecas e bonecos infláveis, peças íntimas arrasantes, cinto de castidade (para quê eu não sei), máscaras da Mulher Maravilha e de outros personagens famosos e até chicotes... ui ai ui ai, além de uma abundância (sem trocadilho) dos mais bisonhos acessórios sexuais.
A trilha sonora que toca no estabelecimento tem formato de som ambiente, com sussurros e suspiros de dar arrepio no mais gélido dos mortais. Nada de axé, pagode, funk ou breganejo. Menos mal.
As funcionárias se vestem de maneira discreta, porém, perfumosas. Conversam apenas o necessário e fingem que não estão vendo quem entra e sai. A clientela idem, mantém a cautela e evita qualquer espécie de ruído que atraia atenção de curiosos.
"Sexo não é pecado. Fazer amor é preciso", avisa uma placa estrategicamente pendurada na sessão mais erótica com a imagem de Afrodite por testemunha.
O entra e sai é constante, tudo muito rápido. O perfil do consumidor dos sex shops se revela mediano, em sua maioria. Ele vai ao local já sabendo o que deve ou não adquirir, paga a mercadoria e desaparece como que num passe de mágica.
Meio sem graça diante daqueles apetrechos “pecaminosos”, achei por bem dar meia-volta e bater em retirada. Qual não foi minha surpresa ao me ver de cara com uma conhecida de outros carnavais que se dizia "evangélica" e alardeava aos quatro ventos não admitir nada de “errado” enquanto fosse solteira. Sem graça, diante de mim, olhou-me de cima em baixo, respirou fundo e questionou desembestada:
– Maaaarcos, o que sua pessoa está fazendo aqui?
– O mesmo que você, respostei meio almocreve.
– Cuidado! Não é nada disso que você está pensando. Entrei no lugar “errado ”, tentou explicar com visível nervosismo.
– Quer saber de uma coisa? Quem entrou no lugar errado foi eu e já estou de saída. Sinta-se em casa, respondi energicamente, mas com cuidado para não ofendê-la. Tchau mesmo, a gente se vê por aí, boa sorte.
Deixei aquele recinto de fininho e a menina ficou lá, estática. Parecia uma gazela petrificada diante do óbvio ululante. Sem a bíblia nas mãos, como costumeiramente faz em nome de "Jesus". Quem pode com essas mulheres modernosas?