segunda-feira, 5 de março de 2012

Fábio Stella, um "velho camarada"



Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
facebook/


>> Simpático e amistoso, o cantor Fábio, 66 anos, atendeu sem frescura ao primeiro contato do Cacarejada Virtual para uma entrevista descontraída à  produção desta página.

O paraguaio nacionalizado brasileiro Juan Zenón Rolón, seu verdadeiro nome, foi amigo do cantor e compositor Tim Maia (1942 - 1988) ao lado do qual gravou, juntamente com Hyldon, outro relevante intérprete da soul music brasileira, um dos maiores sucessos dos anos 70: “Velho Camarada”. Mas sua carreira artística inclui dezenas de outras canções, todas de rara beleza.

A música Stella, porém, é que tornou Fábio nacionalmente conhecido. A bela canção que fez em parceria com o amigo Paulo Imperial, no verão de 1968, teve como musa inspiradora uma jovem estudante dos anos dourados que morava em Copacabana, na Zona Sul do Rio. “O Imperial nutria um amor platônico por ela e fez a letra. De minha parte, existia uma paixão na mesma época e então compus a melodia”, lembra tranqüilo.

O artista também se notabilizou por gravar vinhetas para a Rádio Globo do Rio de Janeiro, em que diz, com eco, o nome da emissora, precedido de um assovio e das equipes cariocas de futebol.

Já faz um certo tempo que Fábio deixou o eixo Rio/ São Paulo indo morar em Salvador, onde se casou com uma produtora rural. “Reencontrei uma antiga paixão que me fez um convite para passar uns dias na Pedra do Sal, em Itapuã. Fui, gostei, fiquei”, revela.

Você participou de um período efervescente da MPB. O mercado fonográfico seguia a pleno vapor, a pirataria e as tecnologias de informática ainda não ofereciam acesso aos downloads. Como o artista pode sobreviver hoje de seu trabalho? Quais as principais dificuldades que os grandes compositores e intérpretes enfrentam?
Essa nova realidade é inescapável. A indústria fonográfica e os artistas enfrentam situação adversa e a tecnologia tornou fácil e “gratuito” o acesso a downloads, que permite a pirataria. Hoje, o artista que não está virtualmente inserido no mercado da música, com sites de relacionamento, blogs e outras ferramentas do mundo internáutico e que inclua agenda de shows (com disponibilidade de venda casada de CD e DVD), o ano inteiro está condenado.

O jovem de décadas passadas era mais exigente do ponto de vista musical. Por quê o declínio vertiginoso neste aspecto?
No passado, a educação musical fazia parte da família, sem distinção de classes sociais. Falo isso porque entendo por boa música toda e qualquer expressão musical, independente da classe social, e onde está contemplado o clássico, jazz, popular, folclórico, sacra, etc. Um bom exemplo em nosso País: Donga, Cartola, Nélson Cavaquinho e outros grandes, oriundos de classe menos favorecida. A meu ver, a criação de um modo geral vive seus ciclos. Os anos dourados foram ricos e a partir dos noventa houve um hiato. Esperamos bons ventos.

Stella foi, sem dúvida, seu mais conhecido sucesso entre tantos que você gravou. O título da canção faz até parte do seu nome artístico. Quem teve essa ideia?
Surgiu a partir do relato de meu sobrinho Matheus, na ocasião com quatro anos de idade. - Meu tio é cantor, falou Matheus a um coleguinha. E o coleguinha perguntou: - qual o nome dele? Matheus respondeu: Fábio. O coleguinha perguntou novamente: - Fábio Júnior? E a resposta foi imediata: não, Fábio Stella.

A melodia teve alguma inspiração especial?
A música é de minha autoria em parceria com meu saudoso amigo Paulo Imperial. Ele tinha um amor platônico e essa jovem estudante, de nome Stella, que era colega dele do tempo de faculdade, é que o que motivou fazer a letra. A melodia foi inspirada por uma paixão vivida por mim, na mesma época. Aliás, eu vi essa moça apenas uma vez. Ela passou toda bonita e charmosa por uma rua de Copacabana. Já faz mais de quarenta anos.

Seu nome está associado também à história das vinhetas produzidas pelo Sistema Globo de Rádio para a emissora e equipes de futebol do Rio de Janeiro. Quem nunca ouviu, por exemplo, “Rádio Globooooo...”, “Flamengooooo...” “Fluminenseeeee...”, "Vascooooo.....", "Botafogo....."? Ainda é sua voz ou trocaram a roupagem?
A voz da vinheta é única. A que atualmente está no ar não é a minha voz.

Como foi a trajetória que o conduziu ao Brasil?
Minha primeira visita ao Brasil ocorreu em 1961, quando eu integrava um conjunto típico paraguaio chamado Trio Los Mensu, ocasião que permaneci por três meses. Retornei ao Paraguai, pois meus pais exigiam que eu concluísse meus estudos secundários. Após a conclusão, não ingressei à universidade e retornei para o Brasil definitivamente.

Você ainda mantém contato com suas origens paraguaias?
Sim, sempre. Com minha mãe Dona Blanca, nunca estarei distante de minhas origens. Viajamos juntos em 2010 com minhas irmãs e passei o réveillon 2012 na fronteira junto com os meus familiares.

Sua amizade com Tim Maia (1942-1998) continua a render bons frutos. Você lançou, inclusive, o livro Até Parece que foi Ontem, onde narra suas aventuras com o síndico da MPB. O CD Meu Jovem Amigo também é uma homenagem ao parceiro artístico. Fale-nos sobre esses dois trabalhos.
Primeiramente, gostaria de lembrar que o nome do livro se refere a uma música minha com Paulo Sérgio Valle intitulado Até Parece que foi Sonho, na qual tive o auxílio pra lá de luxuoso do saudoso amigo Tim. O livro foi, essencialmente, fruto de nossa amizade de três décadas e o CD Meu Jovem Amigo, meu primeiro autoral após a retomada de minha carreira.

As redes sociais, a exemplo do Facebook, espaço virtual onde você também se encontra, são agora um novo canal para que o artista interaja com os fãs e o público em geral. Você costuma responder aos contatos que recebe diariamente?
Sim, pois acho importante interagir o com meu público.

Que tipo de música toca na sua vitrola?
Atualmente, o meu laboratório musical tem sido provido pelo meu amigo e grande instrumentista Paulinho Trompete que transita por uma diversidade de sons vagando do jazz, fusion, soul music e alguns colegas virtuosos brasileiros.

Quem são os grandes cantores da atualidade?
Já vi e ouvi muitos cantores ao longo de minha carreira. Mas, para minha surpresa tenho ficado estarrecido com alguns nomes que não vou me lembrar e que aparecem no programa do meu amigo Raul Gil.

O livre pensador Marcelo Pereira, de Niterói (RJ) - escreveu em nossa página do Face que você uma “lenda perdida do excelente soul brasileiro, que nunca ficou a dever ao soul americano, sendo melhor em até alguns aspectos.”
Fico lisonjeado com isso, caro Marcelo. Sua referência em forma destacada e a lembrança do nosso nome são importantes.

É fácil encontrar espaço na sua agenda de shows ou o calendário está sempre lotado?
O artista dá sempre seu jeito para uma nova oportunidade.

Qual seu time de futebol preferido?
Flamengoooooo ...

Por quê optou por morar em Salvador? Como se sabe, a terra do acarajé cultiva uma chamada “cultura própria” e não costuma sorrir para os ritmos “forasteiros”.
Reencontrei uma antiga paixão, Popó Muniz, que me fez um convite para passar uns dias na Pedra do Sal em Itapuã. Realmente, lá existe um “muro” difícil de transpor, mas, como o mais intransponível caiu (o de Berlim), nos aguarde.

As mulheres de hoje estão mais livres, avançadas e independentes. Mas há grandes diferenças quando se compara o caráter da mulher de décadas passadas com a linha de pensamento adotada por elas atualmente. O que o homem deve fazer?
Elas sempre serão as melhores, independente da dinâmica conservadora ou libertária. Nossas avós, mães, esposas, filhas, etc.




Cursos 24 Horas - Cursos Online com Certificado