terça-feira, 19 de junho de 2012

Livro de jornalista carioca traça perfil das inquietações femininas modernosas


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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A salvação da lavoura na  invernosa noite de insônia - com direito, porém, a uma sessão de Jazz e MPB na vitrola, além do delicioso cappuccino com canela preparado por mãos femininas - ficou mesmo por conta da leitura de "Minhas Amigas" - do respeitável jornalista, escritor e colunista carioca Joaquim Ferreira dos Santos (foto).

Lançado pela Editora Objetiva, ao preço de 39 reais, o livro é um apanhado dos mais interessantes e divertidos sobre o mundo feminino. Aliás, acabo de confirmar que não adianta discutir com elas. Mulheres, prezado transeunte deste espaço virtual, sempre acham que a razão nunca pertence-nos. Mesmo quando estão erradas.

Um jornal do Recife publicou na página policial que a doméstica Maria das Graças Vieira, 28 anos, traiu o marido com o vizinho e ainda deu uma panelada na cabeça do coitado que foi tirar satisfação com o desafeto. Veja se a moda pega. Certamente vão faltar panelas, caçarolas e frigideiras nesta nação descoberta por Cabral.

Pois bem; cem mulheres, reais ou ficcionais, são protagonistas do livro "Minhas Amigas". Numa entrevista concedida ao site UAI,  Joaquim Ferreira sentiu-se à vontade para falar sobre a obra.

“Tenho uma amiga que sempre arruma um jeito de puxar o celular, clicar no ícone de fotos e mostrar o moreno de barba de quatro dias”. “Tenho uma amiga feliz proprietária de dois gatos e um namorado alérgico”. “Tenho uma amiga de olhos escuros e pele suave, talvez a mais bonita de todas, que põe a vida amorosa na contramão de sua elegância intrínseca.”

A partir da anotação de histórias recolhidas em almoços, jantares, happy hours, cafés e encontros casuais, Joaquim traça um panorama natural de suas protagonistas. A maioria delas tem as relações afetivas como questão fundamental da vida.

A espera pelo príncipe encantado, cenas de ciúmes, traição e desilusões estão presentes nos textos. Para o jornalista, as mulheres são movidas por paixões, sentimentos e afetos. "Costumam colocar a relação amorosa na frente de tudo e, portanto, acabam sofrendo mais por isso. Os homens são mais práticos", analisa.

Para o cronista, os machos também estáo em busca da felicidade, mas se vislumbram diante de outros projetos enquanto ela não chega na forma de uma companheira. "As mulheres apostam tudo na possibilidade de serem amadas. Como esse jogo é de alto risco, sofrem e falam disso. Elas são adoravelmente mais expositivas dos bodes e flores que lhes passeiam nos bosques da alma", acredita.

Meu livro é sobre isso. Um elogio ao jeito como elas se jogam na vida em busca de seu grande sonho”, destaca o jornalista, autor de Em busca do borogodó perdido, Feliz 1958 – O ano que não devia acabar, Um homem chamado Maria e Leila Diniz – Uma revolução na praia.

Joaquim Ferreira dos Santos se considera um eterno admirador das mulheres. Vive cercado delas: tem duas filhas, duas irmãs e três colegas de trabalho, além das ex-namoradas. Para ele, as representantes do sexo feminino são o “grande fenômeno do século 20”.

“A mulher se reinventou inteiramente, e assim continua. Avançou nas questões sexuais, teve direito ao prazer, algo que a geração da Leila Diniz não tinha. Agora é valorizada profissionalmente – temos uma presidente – e sabe-se lá onde vai parar. A mulher vive um momento de euforia, de acúmulo de conquistas. Meu livro flagra isto: uma personagem nova. Ao mesmo tempo em que se ajusta ao mundo, derrubando preconceitos, ela já não vê necessidade de se fazer durona, como as feministas dos anos 1960. A mulher já mostrou o que pode”, conclui.

Duas perguntas para Joaquim Ferreira dos Santos

Além de escritor, você é jornalista. Como vê o papel do cronista e o lugar da crônica nos jornais de hoje?
Há cada vez menos cronistas nos jornais. Os cronistas clássicos eram um respiradouro dentro do jornal, os malucos que tinham autorização para escrever do jeito que quisessem. Hoje, o texto é menos rigoroso. Em qualquer artigo ou reportagem cabe mais experimentação, aquele jeito à vontade dos cronistas. Perdeu-se por um lado, ganhou-se pelo outro. O novo jornalismo norte-americano, do Gay Talese e do Norman Mailer, ajudou nisso. Misturou tudo. Não me acho exatamente um cronista na tradição do Rubem Braga, mas um repórter que pisca para a crônica e tenta fazer com que ela seja mais uma amiga.

Você acredita que a crônica é um gênero literário menor?
Se os cronistas desapareceram dos jornais, eles pululam na internet. Há multidões em blogs escrevendo crônica ou o que acham que seja uma. O gênero tem formato muito amplo e de difícil definição. O Rubem Braga dizia que quando a pretensão não é grave, tem-se a crônica.