sexta-feira, 20 de julho de 2012

FMs cariocas podem estar "comprando" audiência


>> Em mais um de seus interessantes artigos sobre a radiodifusão brasileira, o jornalista Alexandre Figueiredo - editor dos blogs - O Kylocyclo e Mingau de Aço - discorre sobre uma prática que vem sendo desenvolvida pelas FMs "aemizadas" do Rio de Janeiro.

Diante da perda considerável de audiência ultimamente em função das novas tecnologias auditivas disponíveis, essas emissoras fazem parcerias na base do "tudo ou nada" com estabelecimentos comerciais na tentativa de cativar clientes e transeuntes das lojas.

Por Alexandre Figueiredo

As FMs com roupagem de AM no Rio de Janeiro podem estar usando a mesma prática de suas similares em Salvador e outras capitais do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e no interior do país.

Sem poder atingir a grande audiência que marcou as emissoras de rádio AM, as FMs investem em "parcerias" com estabelecimentos comerciais, numa prática que já se constitui num jabaculê não-musical.

De uma hora para outra, estabelecimentos passaram a sintonizar as FMs "AnêMicas", sobretudo durante programas esportivos e transmissões de futebol, mas também em programas estratégicos envolvendo comunicadores de nome. Tudo para empurrar a audiência para o público freguês que nada tem a ver com isso.

A manobra é sutil. Produtores de rádio estariam combinando com determinados estabelecimentos bastante frequentados em certos pontos da cidade, para que estas lojas sintonizem as tais FMs. Oferece-se de tudo, de pagamento de contas de luz e de fornecimento de bebidas, até mesmo a concessão de "brindes", como telefones celulares pré-pagos ou equipamentos de som.

No caso de grandes redes de lojas ou papelarias, o jabaculê estaria sendo feito através do abatimento no espaço publicitário. "Você sintoniza a minha rádio na sua loja e eu dou desconto para ela no intervalo comercial", é o recado dado por representantes do departamento comercial de tais FMs, sobretudo em relação às transmissões esportivas e mesas redondas de futebol.

A medida tornou-se muito conhecida em Salvador, quando FMs do gênero "AeMão" passaram a "alugar" desde botequins até taxistas, porteiros de prédios, frentistas de postos de gasolina etc. Um sindicato de taxistas, durante uma gestão pelega, chegou a ser premiado com um programa na Salvador FM, do político ruralista Marcos Medrado.

Dependendo do caso, variam os "beneficiários". A Rádio Metrópole havia feito uma "barganha" com as Lojas Americanas e a Civilização Brasileira do Iguatemi, "convidados" a sintonizar as transmissões esportivas, e os serviços de transporte escolar, a sintonizar o programa do seu dono Mário Kertèsz (no momento tentando uma volta à política). Por sua vez, a Transamérica FM de Salvador escolheu uma papelaria do Salvador Shopping para a sintonia combinada.

No Rio de Janeiro, a Rádio Globo, a Super Rádio Tupi (AMs que possuem prefixos em FM) e a Band News Fluminense estariam combinando até com barbearias e bancas de jornais para a tendenciosa sintonia. Alguns estabelecimentos são escolhidos para a ocasião, mas isso cria uma prática que puxa estabelecimentos similares a aderir "espontaneamente" para imitar a concorrência.

Audiência anabolizada

O uso de estabelecimentos comerciais é um artifício para rádios com baixíssimo índice de audiência individual ganhem audiência. A baixa audiência é camuflada por pessoas que estão onde um único indivíduo, ou, quando muito, um pequeno grupo de pessoas sintoniza uma rádio.

Desse modo, cria-se um mecanismo para que a audiência se anabolize. Calcula-se a média de fregueses que um estabelecimento comercial consegue atrair, e usa-se esse número para definir a "audiência" de tal rádio. O que empurra muita gente que nada tem a ver com essa sintonia a "fazer número" nos pontos do Ibope.

É a tática do "fumante", "quem está no meu lado ouve o que eu ouço'. Você não tem a ver com a sintonia de uma Rádio Globo e no entanto você é "ouvinte" da emissora só porque o dono da barbearia sintonizou a rádio.

Esse raciocínio é o mesmo dos chamados "DJs de ônibus", que promovem a poluição sonora contra a vontade dos outros. Esses ouvintes impõem o gosto musical deles para os outros, e quem estiver próximo é obrigado a aguentar tudo isso.

No caso do "Aemão de FM", aguenta-se tanto lero-lero sobre times esportivos, o tendenciosismo de certos comunicadores ou "âncoras", e até nas noites o pessoal é obrigado a dormir com a narração corrida de um locutor esportivo ressoando nos ouvidos que nem voo de marimbondo.

Todo esse jabá é feito visando mais pontos do Ibope. Com a "vantagem" (só para os donos de rádio e seus consortes) de que esse jabaculê não precisa pagar uma parcela para o ECAD e nenhum colunista de rádio vai reconhecer realmente como um jabaculê. Só que esse jabaculê é bem pior do que aquele que só se movia pelas notas musicais.