domingo, 21 de outubro de 2012

MPB de mentirinha ameaça cultura popular

Postado por Marcos Niemeyer
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Nota deste blog
Nas conversas com amigos, sobretudo os mais jovens, costumamos afirmar que houve um tempo em que o artista precisava de talento para fazer sucesso. Hoje em dia, lamentavelmente, a situação mudou.

Qualquer "cantor" lançado pela mídia costuma transformar-se em fenômeno da noite para o dia. Os meios de comunicação usam a ignorância cultural do brasileiro para fabricar esses falsos ídolos e polvilhá-lhos como abelhas no pote de mel.

No caso das "cantoras", por exemplo, basta ter bunda grande e os cabelos ridiculamente pintados de amarelo (falsas loiras). Nas FMs popularescas e nos medíocres programas de auditório televisivos, não se fala em outra coisa que não seja o mau gosto musical (para eles é o que existe de melhor, pasmem!)

Um dos mais autênticos críticos desses modismos idiotas, o jornalista Alexandre Figueiredo editor do blog - O Kylocyclo - enviou-nos por e-mail novo e interessante artigo de sua autoria sobre esses fariseus que emporcalham a música brasileira. A matéria é inconteste.

Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, a MPB autêntica anda perdendo espaços nas emissoras de rádio, na televisão, na Internet, e mesmo no gosto médio da população. Já exercendo um papel secundário na mídia, que prefere dar divulgação privilegiada aos ídolos "populares" do brega-popularesco, a MPB autêntica, que nunca dependeu de plateias lotadas para ter credibilidade, no entanto acaba sendo jogada para o limbo, boicotada pela mídia dita "popular".

Esse processo vem ocorrendo há pelo menos uns 20 anos, quando a MPB autêntica era vista pejorativamente como "elitista" pelo mercado, enquanto uma população de baixa escolaridade era forçada a consumir estilos musicais bastante duvidosos, de pretensos "artistas" sem personalidade marcante e totalmente submissos aos ditames do mercado.

Conquistando novas reservas de mercados, os ídolos do "sertanejo", "pagode romântico", axé-music, "funk melody" e "forró eletrônico" surgidos a partir de 1989 e que emplacaram sobretudo na década de 1990, constituem o que se pode chamar de geração neo-brega, por fazer uma fusão entre a fase pasteurizada da MPB das gravadoras, nos anos 80, e o brega pós-Waldick, sobretudo na linha de Michael Sullivan & Paulo Massadas.

O grave problema é que esses "artistas" - todos bastante conhecidos e famosos, queridos até mesmo da revista Caras - , que na sua falsa modéstia fazem muito sucesso mas se dizem "vítimas de preconceitos", são hoje patrocinados até mesmo por multinacionais e por conhecidos veículos da grande mídia.

Este patrocínio faz com que os ídolos sejam "remodelados" para se tornarem o que somente a mídia e a intelectualidade dominantes entendem por "verdadeira MPB", uma denominação bastante cínica para definir aqueles que juntam todas aquelas regras pomposas impostas à MPB nos anos 80 - e que fizeram afastar o grande público para o Rock Brasil - e um suposto apelo popular.

Só que o que eles fazem é, na verdade, uma "MPB de mentirinha", um simulacro de MPB feito à base de muita tecnologia, muito banho de loja, muito marketing e qualquer tipo de pretensiosismo.

Nessa pseudo-MPB, os ídolos da axé-music, "sertanejo", "pagode romântico", entre outras breguices pseudo-sofisticadas, exibem roupas chiques e recebem uma cobertura exemplar da imprensa de celebridades, enquanto musicalmente se comportam meramente como crooners de churrascaria ou como calouros de reality shows musicais.

É constrangedor ver que esses cantores, cujo esquema de marketing inclui até mesmo tietagem de belas atrizes e atores sarados de TV, se limitando a alternar covers tendenciosos de MPB, principalmente em tributos caça-níqueis a efemérides diversas que variam do aniversário de uma cidade à lembrança de um artista falecido da MPB, com um repertório autoral burocrático que não deixa marca alguma na nossa música.

Casos como uma dupla "sertaneja" que agora só canta com orquestra e que se apropriou de uma antiga canção de Ari Barroso e Lamartine Babo, originalmente de notável beleza, mas hoje com sua imagem "arranhada" pela associação recente à dupla.

Ou então há o caso do cantor de "pagode romântico" que, com mais de 20 anos de carreira, foi bancar um crooner em um tributo de Lupicínio Rodrigues e, de forma tendenciosa, pegar carona na redescoberta de Wilson Simonal, para depois voltar à velha lavra autoral, de qualidade duvidosa, gerando problemas com uma música de insinuação machista e racista.

Essa "MPB de mentirinha" ainda mostra pretensas rainhas da música baiana se achando as donas da Música Popular Brasileira, se aventurando em tributos tanto de brega-popularesco quanto de MPB ou Rock Brasil, atirando para todos os lados buscando uma associação forçada a tudo que for música brasileira, que não ajuda em coisa alguma no verdadeiro ecletismo.

Enquanto isso, nossos mestres da MPB autêntica já são idosos, eles até continuam em forma, com saúde para encarar apresentações ao vivo etc. Mas um dia eles nos deixarão e a MPB está praticamente acéfala, porque falta uma verdadeira renovação que possa unir ao mesmo tempo uma qualidade musical genuína e espontânea e um apelo popular que não seja feito pela força das rádios controladas por grandes redes ou por oligarquias regionais.

Pouco importa se o ídolo neo-brega dos anos 90 hoje "aprendeu" a "fazer MPB direitinho". O problema não é fazer o dever de casa, porque isso se torna tendencioso e forçado pelas circunstâncias.

A pseudo-MPB de veteranos neo-bregas apenas é uma mudança cosmética, que dentro de um contexto altamente mercadológico apenas faz os ídolos neo-bregas se tornarem "palatáveis" para públicos mais abastados economicamente. O que não faz qualquer diferença no que se diz à renovação da MPB, muito pelo contrário.

Esses ídolos, na verdade, acabam soando burocráticos. Soam como meros fetiches, famosos tão "importantes" quanto qualquer um do Big Brother Brasil que apenas fazem uma música "arrumadinha", "perfumadinha", tudo "bem feito" na aparência, mas que mesmo assim não traz um resultado realmente valoroso.

Isso deixa claro na medida em que esses ídolos da axé-music, do "sertanejo", do "pagode romântico" e, agora, com a adesão até de novos nomes do tecnobrega, "funk melody" e do tal "sertanejo universitário" (que defino como "pós-bregas", surgidos nos últimos 10, 15 anos), apenas seguem as normas mercadológicas que as gravadoras impuseram à MPB, normas recusadas pela MPB autêntica que provocou um grande êxodo das multinacionais.

Os neo-bregas e pós-bregas não se tornam mais criativos com isso. Apenas se tornam mais "profissionais". E, por trás dessa reputação falsamente melhorada, eles dependem de outros arranjadores e produtores para "arrumar" seus repertórios, além de recorrer a covers de MPB ou duetos com artistas da MPB autêntica.

Os artistas de MPB autêntica até aceitam fazer duetos ou ter músicas gravadas por essas gerações bregas, porque são estes que possuem vínculos fortes com organizadores de grandes festivais do interior do país ou com programas da TV aberta.

Isso também não fortalece a MPB autêntica, porque tudo fica associado sempre aos ídolos brega-popularescos que estabelecem seu poderio na mídia e no mercado. São esses ídolos que se apropriam da MPB autêntica para anulá-la e enfraquecê-la, porque, quando muito, a MPB autêntica aparece sempre sob um papel secundário na mídia e no mercado e no "gosto padrão" do grande público.

Se um cantor de "pagode romântico" grava "Sá Marina", por exemplo, pouco importa para seus fãs se é um sucesso de Wilson Simonal e que teve como um dos autores um instrumentista boicotado pelas rádios chamado Antônio Adolfo. Quando muito, a música se torna apenas uma "homenagem" do ídolo sambrega a Wilson Simonal, mas que na prática soa uma apropriação da imagem que o cantor sambrega faz ao falecido artista.

Temos muitas poucas rádios de MPB. Poucas, que não dão para o gasto. Fora isso, há as inserções da verdadeira música brasileira em programas especializados em rádio AM, em emissoras educativas ou em FMs de adulto contemporâneo.

Mas isso é insuficiente para fazer frente ao império brega-popularesco movido pela mídia e pelo mercado. E que a "MPB de mentirinha" serve como meio de barrar a MPB autêntica para o grande público, ou reduzi-la a um papel coadjuvante ou figurante.

O simulacro de MPB por ídolos vindos da música brega só serve para consolidar a mediocridade cultural dominante, os covers de MPB ofuscam, mercadologicamente, as versões originais, e os artistas da MPB autêntica são deixados de lado, "substituídos" por uma multidão de cantores, duplas e grupos medíocres, mas "arrumadinhos" o suficiente para parecerem à primeira vista "sofisticados" e "grandiosos".

Mas é só colocar um disco desses "grandes artistas" da axé-music, da "musica sertaneja", do "pagode romântico" e outros estilos popularescos para percebermos que essa "qualidade musical" que eles tanto prometem não passa de conversa para boi dormir, porque tudo isso não passa de um engodo comercial e apenas reafirma o mercado que há muito prejudica e ameaça a verdadeira cultura brasileira.
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