quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Calendário Maia? Não; Folhinha Mariana


Postado por Marcos Niemeyer
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Nosso comentário
>> O interessante artigo foi publicado originalmente pelo jornal  'O Tempo' de Belo Horizonte. Para as novas gerações, a "Folhinha Mariana" soa como algo tão lendário quanto aquelas histórias que nossos avós contavam sobre lobisomens, mulas sem cabeça e outras fantasmagóricas entidades de meio século atrás.

Apesar de todo o avanço da tecnologia, preservar nossas tradições se faz necessário. Afinal, sem passado não haveria presente nem futuro. As crianças de hoje precisam mais do que nunca conhecer a essência de suas raízes. A "Folhinha Mariana" é cultura e tradição.

Em plena era da internet, carros futuristas e dinheiro de plástico, uma publicação do século XIX desafia a tecnologia e resiste ao tempo em Mariana, cidade da região Central de Minas Gerais.

Trata-se da "Folhinha de Mariana", calendário criado em 1870 e que, além de registrar os dias do ano, faz uma previsão do tempo para os 12 meses e orienta sobre qual cultivo deve ser plantado em qual época. Por ela, é possível saber em qual período vai chover ou fazer sol. E tem gente que garante que a previsão não erra.

Ainda hoje, os moradores da cidade histórica mineira mantêm a tradição de seguir a "Folhinha Eclesiástica da Arquidiocese de Mariana", nome completo da publicação editada no começo de cada ano.

O sucesso do periódico se deve, também, ao fato de ele trazer os nomes de santos para os 365 dias do ano, informação que, ao longo das décadas, vem servindo de inspiração para muitos pais e mães na hora de batizarem os filhos. Criado por padres católicos, o calendário substituiu a antiga "Folhinha de Rezas do Bispado", de 1830. Para os moradores, o que mais chama a atenção é mesmo a previsão do clima.

Mistério

O cônego José Geraldo Vidigal, que dirigiu a publicação por 35 anos, revela que a origem das previsões é um estudo feito a partir do "Lunário Perpétuo", livro que contém tabelas com cálculos para descobrir o regulamento do tempo.

O livro é raro e, segundo o religioso, só existem dois exemplares originais no mundo - um está em Portugal e o outro em Mariana. "O ‘Lunário’ foi escrito em terras lusitanas, no século XVII, por um autor desconhecido.

É baseado em observações astrológicas feitas anos a fio pelo escritor. Nele, encontramos a fórmula para calcular períodos de plantio, clima e fases da lua. Vários leitores consideram as previsões infalíveis", explicou o cônego, lembrando que a origem de tal sabedoria é um mistério e que o livro é guardado em segredo.

Mas, para os moradores, isso não importa. O que vale é comprovar o que está escrito na folhinha. Para o funcionário mais antigo da gráfica Dom Viçoso - onde a publicação é impressa - José Liberato, 74 anos, não há dúvida. "É mais fácil nascer dente em galinha do que a ‘Folhinha de Mariana’ errar", diz, ao reproduzir um ditado popular.

Consulta até para sair de casa

O aposentado Antônio Pacheco Filho, 71, é desses moradores que não saem de casa sem antes dar uma "espiada" na "fuinha" pregada atrás da porta da cozinha. 

"As previsões da folhinha sempre deram todas muito certo. Eram seis meses de chuva, seis meses de seca", diz Pacheco, para quem, mesmo com as mudanças de clima provocadas pelo aquecimento global, as pessoas vão continuar seguindo o anuário. "Com todo esse desmatamento e mudança da natureza, pode ser que alguma coisa não de tão certo. Mas as pessoas ainda costumam fazer o plantio de acordo com a orientação da folhinha. Ela era considerada o serviço de meteorologia para o homem do campo, adiantava a previsão", completa.

Para o advogado Roque Camêllo, presidente da Casa de Cultura - Academia Marianense de Letras, não resta dúvida de que as previsões da folhinha são acertadas. Para ele, o calendário é mais do que uma publicação religiosa, um serviço de utilidade pública. "Pessoas não viajavam, por exemplo, em épocas anunciadas como de rigor do frio ou chuvas intensas", disse. Aos céticos, o acadêmico é taxativo. "E você diria... e dava certo? Dava certo!".

Para o acadêmico, a secular "Folhinha de Mariana" é mais do que um calendário, mas um patrimônio cultural de Minas e do Brasil e a mais clara expressão da cultura popular. "Há que se manter a publicação contínua da folhinha pelo peso da tradição. É um instrumento de cultura. Não só para nós, marianenses, que somos um povo de forte tradição. Os mineiros têm isso na alma, no sangue".

A grande procura pela "Folhinha de Mariana" vai além das fronteiras de Minas, com encomendas para diversas localidades do Brasil. Além do regulamento do tempo,a nova edição traz informações sobre as tabelas do amanhecer e do anoitecer, festas móveis, orações e feriados. Ainda bem que a "Folhinha Mariana" nunca previu o fim do mundo. Por enquanto...
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