quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"Eu também gosto de MPB"



Por Alexandre Figueiredo*
alexfig.floripa@gmail.com
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>> Na hegemonia do brega-popularesco, vemos uma tendência bastante comum num público que varia entre a pobreza melhor remediada e a classe média alta mais paternalista, que é de aparentemente misturar referenciais popularescos e outros considerados de alta cultura.

No gosto musical dessas pessoas, torna-se ilustrativa a aparente mistura de referenciais bregas mais
"sofisticados" com referenciais mais conhecidos da MPB autêntica, a exemplo de Caetano Veloso, Djavan, Milton Nascimento e Zizi Possi.

Entre os jovens, há a junção de referenciais ligados ao "funk carioca", axé-music, "sertanejo universitário", "pagode romântico" e "forró eletrônico" ao lado de uma MPB mais arrojada de nomes como Céu, Wilson Simoninha, Otto, Mundo Livre S/A e Seu Jorge, este o mais popular deles.

Muitas mocinhas suburbanas afeitas ao romantismo piegas e cafona dos ritmos inventados pela mídia tentam dar a impressão de que "também gostam da boa MPB", citando, nas redes sociais, vídeos do YouTube de nomes como Chico Buarque, 14-Bis e Elis Regina.

Isso aparentemente pode sugerir uma transição de gosto, quando o público acostumado ao brega-popularesco parece, à primeira vista, redescobrir as maravilhas da MPB genuína, que é aquela que não depende de grandes massas para ganhar projeção e boa reputação.

Mas, infelizmente, não é. O que se vê é um público que diz "também curtir MPB", mas que a trata como se fosse algo estrangeiro, distante de seu cotidiano. Esse público curte MPB como se fosse um jovem curtindo rock'n'roll.

MPB ficou 'estrangeira'

Saber que Milton Nascimento é visto como se fosse um lorde inglês, por exemplo, é constrangedor, tamanha a sua relevância como artista brasileiro e expressão genuína da nossa brasilidade. Além disso, a música de Milton, para esse público, só ganha sentido de "coisa sua" quando regravado por ídolos bregas.

A MPB acaba tendo um valor secundário, e isso cria distorções tão sérias que o antigo samba dos morros agora possui uma "reputação" midiática que mais parece aquela que consagrou a Bossa Nova. Em outras palavras, o samba dos morros e dos subúrbios agora é "Zona Sul", o público Zona Norte agora é obrigado a tomar como "seu" apenas o "pagode romântico" das rádios.

Isso tornou-se ilustrativo quando o sambista Paulinho da Viola se apresentou gratuitamente em Madureira, subúrbio carioca e berço do cantor. Apesar de bastante elogiado, o cantor e músico foi tratado pela grande mídia como se fosse um artista estrangeiro, algo comparável a Paul McCartney no estádio do Engenhão.

Ou seja, ver que a MPB autêntica hoje é distante do público, apreciada como se fosse algo estrangeiro e externo, é constrangedor e não resolve os problemas que existem na divulgação da MPB na mídia brasileira.

Pelo contrário, o brega-popularesco continua hegemônico e às vezes ensaia uma invasão nos redutos da MPB, sob a condescendência de algum intelectual ou artista conceituado. Até mesmo o público de formação universitária de classe C já começa a dar prioridade ao gosto popularesco, em detrimento da cultura de qualidade.

Em muitas ocasiões, muitos ditos "sem preconceito" acabam expressando um preconceito ainda pior do que aqueles que reclamam serem feitos aos ídolos bregas. Nas redes sociais, músicos como Turíbio Santos, discípulo de Heitor Villa-Lobos, Chico Buarque e Flávio Venturini "apanham" dos mesmos que reclamam respeito e valorização ao "funk carioca".

'Covers' de MPB pelos ídolos bregas não resolvem o problema

A coisa também não resolve quando ídolos brega-popularescos gravam 'covers' de sucessos da MPB autêntica. Mesmo quando "sertanejos" identificados com o coronelismo latifundiário gravem uma canção como "Disparada", de Geraldo Vandré, de uma temática mais próxima da realidade do movimento dos sem-terra.

Afinal, gravar músicas alheias é fácil, difícil é criar obras autorais que fazem frente às grandes canções consagradas por outros artistas e compositores. E, em se tratando de ídolos submissos às imposições do mercado, como são os "pagodeiros", "sertanejos", "funqueiros" e outros ídolos brega-popularescos, isso não os faz equiparar ao primeiro time da MPB, porque lhes falta a qualidade natural para isso.

Gravar 'covers' de MPB até piora a situação, uma vez que o grande público se sente desestimulado em correr atrás do cancioneiro da MPB. Para esse público, para que conhecer o Clube da Esquina, se os tais "sertanejos" já gravam suas músicas?

Isso cria uma preguiça, além do fato de favorecer a vaidade dos ídolos brega-popularescos, que se apropriam do prestígio das canções alheias que gravam.

O gosto musical secundário da MPB também mostra seu equívoco quando uma pessoa que aparentemente curte tanto Edu Lobo quanto um '"cantor" inventado pela mídia se vê diante da televisão, quando simultaneamente aparece um documentário com Edu num canal público ou educativo no mesmo momento em que o ídolo sambrega aparece em um desses programas de auditório da TV.

Por mais que esse cidadão ache "Upa Neguinho" e "Arrastão" canções lindas, ele se irritaria ao ter que abrir mão de do brega popularesco para ver o outro cantor.

Portanto, não basta apenas valorizar a MPB, se ela é colocada em segundo plano e valorizada de forma secundária mesmo por parte de seus simpatizantes. A MPB continua discriminada e menosprezada, na medida em que ela é tratada como algo "simpático" e "admirável", mas fora da realidade do grande público.

*Alexandre Figueiredo é jornalista, mora em Niterói (RJ). Defensor da verdadeira cultura brasileira, mantém na internet os blogs O Kylocyclo e Mingau de Aço. Seus artigos e comentários sempre rendem polêmica, debates calorosos e inúmeras mensagens de apoio.

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