sábado, 16 de fevereiro de 2013

A UOL 89 FM não entende de rock


Por Alexandre Figueiredo
alexfig.floripa@gmail.com
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>> Diz o ditado que se dança conforme a música. Para cada tendência, uma linguagem, uma mentalidade, um estilo. No rádio brasileiro de hoje, tomado pelo atraso e pelo comercialismo mais cego, isso nem sempre é percebido, já que o rádio FM anda infestado de fórmulas antiquadas ou muito mal assimiladas que mostraram-se um grande fracasso, mas mesmo assim persistem até quando os anunciantes começarem a fugir em debandada.

No segmento rock, isso torna-se bastante claro com o retorno "triunfal" da rádio paulistana 89 FM, de triste lembrança, agora com a parceria com o provedor Universo On Line, da Folha de São Paulo, o que fez a emissora ser rebatizada de UOL 89 FM, com os dois logotipos fundidos. O UOL adquiriu ações na 89 FM depois da ameaça da emissora ser adquirida por uma seita evangélica interessada pela rádio.

A 89 FM, "A Rádio Rock", à primeira vista, pertenceu a um segundo escalão de "rádios de rock" surgidas depois do sucesso comercial das rádios pioneiras (como a Fluminense FM, em Niterói, e a 97 FM, no ABC paulista) e impulsionada pela popularidade do primeiro Rock In Rio, em 1985, ano do surgimento da 89, depois do fim da histórica Pool FM.

A princípio, a 89 FM poderia ser a primeira rádio de rock a ter um departamento financeiro e comercial impecável, já que as rádios de rock originais geralmente operavam "no vermelho". Mas o que poderia ser uma façanha acabou permitindo o pecado original da emissora paulista: uma performance morna, caricata e pouco criativa dentro do segmento rock, trazendo desconfiança ao público roqueiro mais exigente, aquele que vai além do mero hábito de "ouvir rock".

Isso tornou-se mais claro nos anos 90, quando a dita "A Rádio Rock" adotava caraterísticas convencionais de FM de "parada de sucessos": até mesmo o estilo de locução, quase popularesco, causava estranheza nos ouvintes roqueiros, que as reclamações começaram a ocorrer. Falava-se até que a 89 FM viraria pop, o que seus locutores tentaram desmentir, mas a verdade é que o perfil de rádio de rock era pasteurizado em prol de uma programação medíocre e nada criativa.

Protestos abafados pela mídia

A grande mídia, evidentemente, protegia a 89 FM e tentou de todas as formas evitar que os protestos do público de rock chegassem à tona. Antes da Internet, isso até conseguia surtir efeito, embora chegasse a um ponto que a situação era incontrolável, refletindo na queda da audiência da emissora, mesmo quando em 1993 tentou soar um arremedo de "rádio alternativa", na carona do perfil estereotipado de "cultura alternativa" lançado pelo modismo grunge.

Depois da Internet, porém, a 89 FM teve que botar até mesmo seus produtores para fazer 'trollagem' nas redes sociais ou então lançar comentários furiosos em fóruns digitais sobre rádio. "Me irrita esse saudosismo em torno da Fluminense FM", disparou um produtor da Rádio Cidade (então afiliada da 89 FM no Rio de Janeiro) que usava o codinome de Roger Strauss, dando o tom do temperamentalismo dos pseudo-rebeldes que ouviam ou trabalhavam na 89 e afiliadas.

Mas depois as reações contra eles acabaram também causando o primeiro fim da 89 FM, quando ela foi arrendada para um outro grupo empresarial, virando, por um breve período, uma emissora de pop convencional, com ênfase no pop dançante curtido por adolescentes ou os chamados 'tweens' (pré-adolescentes). Justin Bieber e Beyoncé Knowles passaram a rolar nos 89,1 mhz paulistas.

Os motivos para esse primeiro fim da 89 FM como "A Rádio Rock" está nas pressões da Internet no mundo inteiro - rádios de rock de qualidade irradiando em outros países passaram a ser ouvidas também no Brasil - , que provocou uma redescoberta tanto do rock alternativo quanto do rock mais antigo que pegou de surpresa os provincianos adeptos da 89 que se limitam a gostar de grunge, 'poser metal', nu metal, poppy-punk e similares, preferindo Mamonas Assassinas a Beatles.

Isso fez com que o público da 89 FM, na medida em que estabelece seu preconceito contra o rock clássico, deixasse a máscara cair e, de castigo, ficar por uns seis anos fora da órbita "roqueira", deixando a tal "nação roqueira", como é conhecida a multidão de fanáticos da 89, entristecida.

Rádio voltou demodê

A volta da 89 FM ao segmento "roqueiro" (ou pelo menos o que o mercado entende como tal) foi festejada por muitos ouvintes que lançaram comentários bastante exagerados e sem fundamento, como "verdadeira rádio rock" e "a melhor rádio rock do mundo". O repertório nem era essa festa toda, bastante convencional naquela linha "só sucesso" e a locução e as vinhetas atropelam o final de cada música, irritando quem quer ouvi-la na íntegra.

Numa época como a Internet, isso é um deslize muito, muito grave, porque as pessoas a cada dia vão para o YouTube pegar faixas de áudio que são gravadas na íntegra, até mesmo quando há o 'fade out' - técnica de uma música terminar com o volume abaixando, como se ela distanciasse de nós dentro de uma máquina de som - , e falar em cima das músicas no começo ou no final, cortas músicas e jogar vinhetas em cima são práticas comuns no rádio brasileiro, mas muito antiquadas.

A 89 FM é pior do que rádio de shopping center, pois se torna um vitrolão repetitivo, convencional e previsível. Você nem precisa ouvir a rádio para saber, por exemplo, qual é a música do Oasis que vai rolar na emissora. Sem falar que até hoje a UOL 89 pouco percebeu que a banda inglesa está extinta, dividida na carreira solo de Noel Gallagher e na nova banda Beady Eye.

A emissora voltou demodê, até mesmo cafona, e, para piorar, até mesmo o coordenador, o ex-cantor de poppy-punk José Carlos Godas, o Tatola Godas, possui o mesmo estilo de locução de qualquer DJ de pop dançante da Jovem Pan 2, ou então comparável a figuras do nível de Emílio Surita (Pânico na Band) e Celso Portiolli.

Se o coordenador já não segue direito o estilo roqueiro, e ainda por cima "comanda" um programa de Rock Nacional, o "Temos Vagas", então a emissora voltou muito mal, a ponto da exagerada euforia dar lugar, imediatamente, a muitos questionamentos de ouvintes roqueiros que veem na 89 FM uma rádio "pop demais para o rock".

Por que ela voltou?

Consta-se que a 89 FM voltou ao segmento "roqueiro" porque seus donos são bem relacionados com empresários da área de shows e promoção de eventos. Quem pensou o Rock In Rio, acertou, porque a 89 repetiu a mesma motivação que a fez surgir em 1985, que é o mesmo evento da Artplan, de Roberto Medina, que apesar do nome não é necessariamente vinculado ao rock. O Rock In Rio terá uma nova edição este ano.

A UOL 89 FM é datada para o parâmetro do radialismo rock que existe no exterior. Mas a 89 FM sempre ficou a dever até mesmo para as rádios originais dos anos 80, mesmo em seus melhores momentos. E hoje, com um maior acesso à informação, o que se vê na programação da UOL 89 FM é uma reles brincadeirinha de criança pequena, sem muito valor.

A cultura rock é tão diferenciada em seus aspectos que envolve não apenas uma disposição a tocar rock no rádio. Inclui a adoção de uma linguagem específica, uma mentalidade própria e até mesmo uma dicção diferenciada, de preferência sóbria e sem gírias (já que elas são perecíveis e um locutor de rock pareceria cafona se falasse muitas dessas gírias).

Não se faz rádio de rock como se faz uma rádio pop. Esse é o erro da 89 FM, e que há muito desmoralizou seu "poderoso" logotipo feito em fontes de impacto. A rádio imaginou que, adotando linguagens pop, iria apenas criar um público heterogêneo de rock, mantendo também os mais exigentes, mas fracassou nesse raciocínio, atraindo um público mais pop mas que pensa ser "roqueiro da gema".

E isso causa um prejuízo enorme para a formação de gostos e informações para o público de rock, restrito a referências superficiais, ligadas ao que há de mais manjado ou comercial. O que trará uma diferença bastante negativa na formação de novos fãs e músicos de Rock Brasil, criando um sub-cenário de bandas medíocres apegadas a clichês e fórmulas banalizados. Daí a hipocrisia da UOL 89 FM abominar o Restart, porque esta banda emo é um subproduto natural da 89 FM.

As rádios de rock originais forneceram informações que ajudaram na formação de bandas de qualidade que hoje ou num passado recente compõem o elenco do Rock Brasil: Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Titãs, RPM, Barão Vermelho, Kid Abelha, Fellini, Nenhum de Nós e Plebe Rude são dotados de músicos com muita informação cultural.

Evidentemente eles fizeram a parte deles, mas se não houvesse rádios de rock autênticas, o aprendizado cultural deles seria bastante limitado, naquele Brasil mais atrasado que hoje, quando temos a Internet. E hoje, com a 89 FM impondo-se como "paradigma de rádio de rock" no Brasil, só se esperará que a emissora e sua programação medíocre lance sub-Raimundos, sub-Mamonas e sub-Charlie Brown Jr. no mercado. Isso para não dizer novos Restart.
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