quarta-feira, 27 de março de 2013

É fácil copiar no "funk carioca"


Por Alexandre Figueiredo

>> O "funk carioca" é de uma qualidade musical tão primária e ruim que se torna um processo fácil, de baixíssimos investimentos mas de alta lucratividade, principalmente quando se vê que existe uma intelectualidade organizada que cria um delirante discurso sofisticado em defesa do ritmo, o que garante ainda lucros permanentes para o gênero com a adesão das elites paternalistas.

Pois esse discurso, de tom demagógico, teses confusas mas construídas numa retórica bastante atraente, é feito por antropólogos, sociólogos, críticos musicais, pedagogos e artistas e celebridades para dar ao "funk carioca" o valor que ele nunca tem, além de criar uma imagem de "vítimas" para seus intérpretes e usar e abusar até mesmo da necrofilia, usurpando a memória de gente como Oswald de Andrade, Antônio Conselheiro, Malcolm McLaren e Vinícius de Moraes para a tendenciosa defesa.

Mas essa choradeira, que se baseia em teses duvidosas que creditam o "funk" como "vítima de preconceito" e "expressão das periferias", não tem o menor fundamento. Primeiro porque nós rejeitamos o "funk carioca" por conhecermos o estilo e seus intérpretes mesmo a contragosto, porque andamos pelas ruas, zapeamos a televisão e o rádio, lemos a imprensa e consultamos a Internet. Os funqueiros aparecem nesses lugares.

Segundo, porque o "funk carioca" nunca foi uma "expressão natural das periferias", mas um ritmo produzido por empresários para deturpar e distorcer ritmos eletrônicos norte-americanos para torná-los "digestíveis" ao mesmo tempo que se inserem baixarias e outras barbaridades no universo funqueiro.

E o "funk carioca" foi assunto de semana passada, quando o grupo MC Federado & Os Lelekes, de Niterói (RJ) se envolveu numa fraude depois que um grupo farsante se apresentou numa casa noturna em Juíz de Fora. O incidente revelou uma disputa empresarial nos bastidores - entre o "descobridor" do grupo Dieddy Santana e o DJ Rômulo Costa, da Furacão 2000 - que incluiu até mesmo as disputas sobre os créditos de autoria do maior sucesso deles, "Passinho do Volante".

O "Passinho do Volante" tornou-se sucesso depois que entrou na Internet - "campo" estratégico dos empresários do brega-popularesco para testar seus ídolos - e mais ainda porque o jogador Neymar tornou-se um propagandista da "música", dançando o tal "passinho" certa vez.

A fraude no "funk carioca" é tanta que há casos de intérpretes que assinam músicas que na verdade são de autoria de seus produtores e empresários. Muitas funqueiras vindas do nada adotam essa fraude, até para receber o dinheiro dos direitos autorais, dentro de um mercado movido pelo jabaculê, pelo esquema mafioso e pela precarização do trabalho.

Fazer "funk" é muito fácil, mas mesmo assim não dá para acreditar que todos os MCs sejam necessariamente autores de suas músicas, pois, se lá fora, no âmbito do pop dançante, um nome como o rapper ICE MC não é responsável pelas músicas que canta, compostas pelo seu empresário e produtor, o DJ italiano Robyx, a coisa não seria diferente entre funqueiros que não sabem onde caírem mortos.

Falta de compromisso social

O "funk carioca", comprovadamente, nem de longe representa qualquer progresso sócio-cultural. Um DJ já escreveu para o blogue O Kylocyclo, o DJ Flavinho, revoltado com as críticas que faço ao "funk" e no seu discurso pseudo-engajado, ele disse certa vez que é só melhorar a periferia que o "funk" melhora. Demagogia pouca é bobagem.

Pois quando a coisa aperta, os militantes funqueiros tiram o corpo fora. Na "histórica" reunião na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2009, o "funk carioca" forçou demais a barra no seu discurso "socializante" e seus defensores enfatizaram a "missão social" do ritmo para arrancar apoio dos parlamentares que, numa manobra politiqueira, decretaram que o ritmo é "movimento cultural de caráter popular".

Alguns fofoqueiros de plantão chegaram mesmo a dizer que o "funk carioca" virou "patrimônio cultural", mas isso não passou de uma boataria sem tamanho, uma vez que, para ser patrimônio cultural, não basta um decreto do Legislativo, mas todo um processo de avaliação de cientistas sociais sérios que envolve o recolhimento de material para o inventário e pesquisas aprofundadas sobre seu histórico.

Apesar do forte lobby que o "funk carioca" possui na intelectualidade, não se acredita que o ritmo venha a ser considerado "patrimônio cultural" pelas vias mais sérias, até porque seu histórico é considerado recente demais para tal âmbito, e como fenômeno da indústria cultural, dentro de um contexto de manipulação midiática, possui uma relevância social duvidosa, e seus "artistas", além da mediocridade cultural inerente, não promovem conhecimentos nem transmissão de valores que garantam um progresso social efetivo nas classes pobres.

Como se não bastasse, há muita "armação" dentro do "funk carioca" que permite até mesmo substituir intérpretes quando há debandada de gente no gênero. É o caso de MC Perlla, cantora de "funk melody", que decidiu se tornar evangélica e cantora gospel (nos moldes de Aline Barros), e sua lacuna foi imediatamente preenchida por uma outra garota, MC Anitta. É o espírito do negócio.

Portanto, criar outros "lelekes", seja usando o mesmo nome, seja criando outros nomes, faz parte do esquema. O "funk carioca" possui limitações artísticas sérias, é bastante repetitivo e precário, extremamente ruim de se ouvir, pela falta de melodia, pelos vocais péssimos e pelas letras grosseiras e por tudo de ruim que o ritmo representa.

Só mesmo o jabaculê para garantir ao "funk carioca" uma posição "nobre" no nosso mainstream. Com todo o discurso intelectual delirante e cheio de inverdades feitas para fazer apologia da pobreza através da defesa do "funk" como se fosse "movimento cultural".
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