quarta-feira, 13 de março de 2013

UOL 89 FM: Estereótipos juvenis e desrespeito humano




Por Alexandre Figueiredo
alexfig.floripa@gmail.com
alexandre.figueiredo.9847@facebook.com

>> A foto em questão mostra o possível ataque de um suposto hacker que não havia gostado de um texto fazendo críticas à rádio 89 FM e ao fanatismo do conjunto humorístico Mamonas Assassinas - que, como banda de rock, era simplesmente medíocre.

Eu tenho um blogue de sátiras e críticas sociais, chamado Expobesta (Exposição de Besteiras que Assolam o Brasil), inspirado no Febeapá de Sérgio Porto / Stanislaw Ponte Preta. Nas postagens recentes, eu publicava textos fazendo críticas à conduta bastante duvidosa da rádio no segmento rock, completamente fora da realidade do público roqueiro autêntico.

De repente, quando fui visitar o blogue ele apareceu com a visualização normal, mas, em cima dela, o trecho da frase de um blogueiro da UOL 89 que havia elogiado os Mamonas Assassinas, num verdadeiro 'bullying' digital, atrapalhando a visualização normal do meu blogue. A frase aparece fragmentada da seguinte forma: "m na hora da oração, A Rádio Rock, começou a tocar a música “Vira-Vira”, e eu com o fone"

Não havia jeito para retirar a frase indevidamente colocada. Eu havia reproduzido o texto completo num comentário sobre os Mamonas, mas retirei ao saber que essa hackeagem foi uma advertência ao uso indevido de um copyright, sobretudo por motivos depreciativos. Devemos lembrar que os sócios da UOL 89 FM estão processando dois blogueiros, os irmãos Mário e Liro Bocchini, justamente pelas reproduções estéticas e textuais de conteúdo crítico do blogue Falha de São Paulo.

A 89 FM, autoproclamada "A Rádio Rock" paulista, é famosa tanto pela imagem caricata do jovem roqueiro - que parece ter surgido da imaginação de algum delegado de polícia truculento, apenas adaptado à abordagem domesticada do "bom pestinha" -  quanto pelo fanatismo de seus ouvintes, adeptos e produtores em relação ao rótulo "roqueiro" da rádio. A personalidade desses fanáticos chega a ser um "meio termo" entre os skinheads e os emos, com a fúria dos primeiros e o perfil abobalhado dos últimos.

A programação da 89 FM - que já começa a reconstituir completamente a mesma conduta que derrubou a rádio em 2006, ficando seis anos só tocando pop convencional - é algo como uma Jovem Pan 2 sofrendo um surto psicótico, e a rádio anda levando às últimas consequências todo o desrespeito que ela faz à cultura rock desde o final da década de 80.

Só para se ter uma ideia, no último dia 25 de fevereiro, dia da lembrança dos 70 anos de nascimento do ex-beatle George Harrison, o portal da UOL 89 FM ignorou completamente a data. Para uma rádio que se autodenomina "a melhor rádio de São Paulo" e quer vender uma imagem de "melhor rádio rock do Brasil" (muito falsa e forçada, por sinal), ignorar o aniversário de um ex-beatle é muito mais do que uma ignorância, é uma atitude de completo desprezo aos grandes nomes do rock.

A rádio também é famosa por ter sido um dos primeiros motivos de trolagem - vandalismo digital praticado por internautas - dos jovens internautas. Muitos fãs da 89 FM eram conhecidos pelo seu caráter intolerante, que nos últimos anos revelou um conflito violento entre públicos que usam a palavra "rock" como bandeira: os ouvintes da 89 FM e os roqueiros autênticos.

Isso tornou-se claro quando, na coluna da jornalista Magaly Prado, na Folha de São Paulo, um produtor da Rádio Cidade e "músico de rock", que usava o pseudônimo de Roger Strauss, demonstrou irritação profunda com a revalorização do rock clássico, disse que as rádios de rock brasileiras não deveriam ter a mesma responsabilidade das rádios do exterior e despejou ataques a Led Zeppelin e Who.

A Rádio Cidade, na época em que seguia o formato da 89, entre 1995 e 2006, tinha ouvintes e adeptos ainda mais fanáticos e reacionários. Eu tive o azar de entrar, no Orkut, numa comunidade chamada "Eu Odeio Acordar Cedo", que tinha vários fãs da Rádio Cidade e eles despejaram rancor contra mim, transformando minha caixa de mensagens num falso chat com comentários irônicos e ofensivos, e um deles ameaçou invadir minha conta. Com a ameaça, tive que desfazer meu perfil e criar outro meses depois.

Desrespeito humano

A fruta não cai longe da árvore. A rádio 89 FM que sempre desprezou os verdadeiros princípios e valores da cultura rock, tem um quadro acionário nada generoso para uma rádio que quer representar, oficialmente, a rebeldia juvenil roqueira. A 89 é propriedade do Grupo Camargo de Comunicação, também proprietário da rádio brega-popularesca Nativa FM.

O Grupo Camargo tem como patriarca José Camargo, enquanto seus filhos, Júnior e Neneto, administram a suposta "rádio rock". Já o pai havia sido politicamente ligado à ARENA durante a ditadura militar e depois ligado ao PDS/PFL. José Camargo também é conhecido por ser um grande amigo do político Paulo Maluf, que dispensa comentários.

Já o portal Universo On Line (UOL), cujo logotipo somou-se ao da 89 FM para a atual UOL 89 FM, é propriedade da família Frias, do jornal Folha de São Paulo, que apesar da imagem "democrática" difundida nos anos 80 e 90, havia colaborado com a ditadura militar, emprestando suas viaturas para o transporte de presos políticos para o DOI-CODI, nos anos 70.

A própria 89 FM, embora festejada, no seu surgimento, como um modelo comercialmente viável de rádio de rock, acabou se distanciando completamente de qualquer receita para uma rádio de rock de qualidade. Vendendo-se, a cada ano, ao comercialismo mais fácil, a 89 FM há muito tempo só é "roqueira" na aparência, porque seu conteúdo não é mais do que uma rádio pop como qualquer outra só que com um vitrolão "roqueiro" que prioriza o poser, o grunge e o poppy punk.

Como rádio de rock, a 89 FM fica a dever até mesmo nos padrões mais comezinhos. Não serve sequer para a difusão de uma cultura rock básica, para iniciantes. Seus deslizes chegam a ser tragicômicos, mas a postura da rádio e seus produtores, ouvintes e adeptos em geral é bastante preocupante.

Afinal, é através deles que nota-se um clima de intolerância e raiva por parte da chamada "nação roqueira da 89". Para eles, pouco importam os rumos do radialismo rock no Brasil e no mundo e as transformações vividas pela cultura rock na atualidade. A cultura rock, para eles, é o que eles pensam com seus umbigos e os roqueiros em geral é que tem que aceitar todo o absurdo que essa "nação" define como "cultura rock".

Daí o desrespeito humano. Os fãs da 89 confundem rebeldia com irritabilidade fácil, parecendo que eles sentem orgulho em serem esquentadinhos. São capazes de fazer 'bullying' virtual, trolagem e até hackeagem. No caso da Rádio Cidade, eram comuns xingações contra aqueles que não apoiavam a conduta "roqueira" que a emissora teve entre 1995 e 2006, sobretudo xingações de caráter homofóbico entre outras calúnias.

Para quem é mais novo, a Rádio Cidade do Rio de Janeiro surgiu como uma simpática emissora de pop eclético, com equipe comandada pelo tarimbado Fernando Mansur, que transformou a linguagem do rádio em 1977, ano de seu surgimento. Infelizmente, em 1995, a Rádio Cidade, pegando carona no fim da Fluminense FM (antiga rádio de rock niteroiense), se transformou numa "rádio rock" caricata, estúpida e arrogante, de triste lembrança mas com uma legião de fanáticos saudosos.

A intolerância é tal que ultimamente os "roqueiros" fãs da 89/Cidade passaram a brigar mais com os roqueiros autênticos do que com os fãs de "funk carioca", "pagode mauricinho" e "sertanejo", até porque vários profissionais dessas rádios foram trabalhar, depois de 2006, em emissoras como a carioca Beat 98 e a paulista Nativa FM.

A cultura rock hoje

Com essa briga, os adeptos da 89 (agora UOL 89) passaram a usar como desculpa a alegação de que o rock clássico é "do tempo da vovozinha" ou de "mil novecentos e bolinha". Surgiu um estranho preconceito contra o rock antigo, que não tem o menor fundamento, por dois motivos bastante simples.

Primeiro, porque a UOL 89 FM vende sua imagem publicitária como "rádio de rock em geral". Se fosse uma rádio comprometida apenas com o rock novinho pós-1990, fazia algum sentido esse desprezo ao classic rock, mas a emissora se autopromove, oficialmente, como uma rádio que aborda todas as tendências do rock, "tanto os clássicos como as novidades", conforme é a apresentação publicitária da emissora.

Segundo, porque esse preconceito contra o rock clássico é algo que não se vê nos roqueiros autênticos em parte alguma do planeta. E se observarmos alguns músicos de bandas tocadas na UOL 89 FM, como Dave Grohl (Foo Fighters), Chris Cornell (Soundgarden, Audioslave), os irmãos Liam e Noel Gallagher (ex-Oasis) e Eddie Vedder (Pearl Jam), eles mantém um respeito e admiração profundos ao rock de "mil novecentos e bolinha", sem se preocuparem se isso é antigo ou não.

É só ver o clima de camaradagem com que se entrosam Dave Grohl e Paul McCartney, que recentemente se reuniram para tocar, ao vivo, músicas do Nirvana. O ex-beatle e o ex-Nirvana, apesar dos mais de 25 anos de diferença, se falam como se fossem amigos de faculdade, tamanha é a admiração recíproca (McCartney planeja fazer um disco no mesmo clima de rock mais cru dos Foo Fighets, por sua vez um grupo também influenciado pelos Beatles).

A cultura rock hoje, não bastasse a relembrança das rádios de rock mais antigas - que tinham repertório abrangente e evitavam adotar uma linguagem pop - , é beneficiada pela Internet que traz aos ouvidos dos brasileiros a programação diferenciada das emissoras estrangeiras que faz a UOL 89 FM parecer o "Restart das rádios de rock".

O trânsito de informações está maior do que em 2005, quando a 89 FM repercutiu mal pela sua conduta pop e pelos seus adeptos intolerantes. O que será complicado para a UOL 89 FM, explicar para o mercado e os anunciantes o porque de seu público ser tão reacionário.

Para dar uma diferença que possa confrontar com os troleiros que defendem a UOL 89 FM e não aceitam as críticas feitas contra a rádio, vale citar aqui o caso da Fluminense FM que, entre 1982 e 1985 adotou uma conduta bastante original como rádio de rock, sob o comando do jornalista Luiz Antônio Mello. 

Ele está a pleno vapor como escritor e jornalista, e vale a pena os leitores visitarem a Coluna do LAM, em dois endereços:  http://colunadolam.wordpress.com  http://colunadolam.blogspot.com.br -.

Na festa de lançamento da Fluminense FM, no Hotel Sheraton, em São Conrado (Rio de Janeiro), cerca de duas semanas depois do surgimento da emissora, ainda em março de 1982, houve um princípio de tumulto no local. Havia rumores de quebra-quebra que preocuparam Luiz Antônio, que decidiu pedir à locutora Edna Mayo que lesse um comunicado informando da lotação do local e pedindo para os ouvintes não se dirigirem mais ao lugar, para que a rádio não seja acusada de promover vandalismo.

A mensagem também pedia ao público da Fluminense que estivesse no lugar que entrasse ou saísse sem pressa, e no final do evento as pessoas saíram de forma pacífica e tranquila, mostrando o quanto a força de uma rádio de rock autêntica tem, não só pelo respeito à cultura, mas acima de tudo pelo respeito ao ser humano, sem promover rebeldias de fachada.

Veja também nossas páginas: O Kylocyclo e Mingau de Aço -.
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