segunda-feira, 6 de maio de 2013

Funk carioca vive de mal-entendidos



Por Alexandre Figueiredo* 

>> O "funk carioca" sempre puxa a brasa para sua sardinha e é capaz de interpretar mal um fato ou rumor visando obter vantagem para si e aumentar suas reservas de mercado na sociedade brasileira e mundial.

Nos últimos anos, três fatos foram mal interpretados e geraram incompreensões que a imprensa noticiou como se fossem "notícias verídicas" ou "fatos concretos", a partir da distorção de certos rumores ou ocorrências.

Em 2009, "ativistas" do "funk carioca", incluindo vários DJs, membros da APAFUNK e intelectuais e artistas simpatizantes, se reuniram na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) para a cerimônia de promoção do "funk carioca", através de um lobby de parlamentares, como "movimento cultural de caráter popular". 

O título, obtido de forma politiqueira, para garantir verbas estatais para o "funk carioca" - que no entanto capta recursos que variam da Fundação Ford (instituição "filantrópica" ligada à CIA) ao crime organizado - , foi muito mal interpretado pela chamada "imprensa popular". Esta espalhou em seus textos que o "funk carioca" foi transformado em "patrimônio cultural", o que não é verdade alguma. 

Afinal, o título de "patrimônio cultural" é obtido de forma técnica e cautelosa, através de especialistas ligados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), mediante avaliação de inventário (como se denomina o material colhido sobre determinado manifesto cultural), que demora para ser analisado e pesquisado.

O que houve com o "funk" foi apenas um imediato ato político, que tão somente transformou o ritmo em "movimento cultural de caráter popular", que é o título que foi adotado.

Portanto, vai uma diferença muito grande entre esse processo impulsionado pelo poderoso lobby dos funqueiros (que inclui o apoio decisivo das Organizações Globo) e as pesquisas que se fazem para transformar um bem cultural de verdade em patrimônio cultural.

Ex- Beatle

Outro boato envolveu o músico inglês Paul McCartney, atualmente em turnê pelo Brasil. Ele havia feito pesquisas sonoras para seu novo disco, e, segundo relato do produtor Mark Ronson, ele havia se impressionado com sons do cantor norte-americano Usher e da banda Bonde do Rolê. "O que faço para conseguir essa energia?", teria perguntado Paul a Mark, o que fez a grande mídia distorcer as coisas.

A distorção partiu porque Paul supostamente teria ouvido "Treinamento do Bumbum", sucesso do Bonde das Maravilhas na versão do grupo paranaense Bonde do Rolê. Foi o suficiente para a mídia sensacionalista brasileira dizer que Paul "está na mira dos 'bailes funk'" e que o ex-beatle "teria virado funqueiro de vez".

A mídia chegou a consultar alguns "astros" funqueiros para indicar seus sucessos para o cantor gravar. Até "Passinho do Volante", de MC Federado e Os Lelekes, foi sugerido.

Só que, na verdade, o que Paul quis dizer nada tem a ver com o "funk". Primeiro, Paul via no Bonde do Rolê uma banda de rock, que é de fato, pois o grupo paranaense apenas inclui o "funk" como elemento adicional a seu som.

Além disso, Paul estaria sendo simpático aos brasileiros, já que se preparava para voltar ao país para mais uma excursão. Sem falar que ele sabe muito bem que o Bonde do Rolê não tem o mesmo valor que os Beatles.

Feminismo

Outro mal-entendido relacionado ao "funk carioca" diz respeito a uma tese de mestrado em andamento, da aluna da Universidade Federal Fluminense (UFF) Mariana Gomes, intitulado "My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural".

Quando Mariana Gomes anunciou o trabalho, a "fauna" funqueira ficou extasiada, achando que a medida tinha o mesmo sentido elogioso dos colegas dela que se formaram na mesma UFF, usando o nome de Valesca Popozuda como patronesse para a cerimônia de colação de grau.

A própria Valesca ficou feliz da vida quando soube do ensaio de Mariana, sem ter a menor ideia de seu conteúdo. "Acordei MUITO FELIZ com a melhor notícia de todas!!! Sem palavras!!!", escreveu a funqueira no Twitter.

No entanto, o trabalho nem de longe elogia ou glamouriza o suposto feminismo das "musas" funqueiras, que, sabemos, não passa de conversa para boi dormir. Mariana Gomes chega a ser um tanto dura com a "sensualidade" das funqueiras, sem poupar a própria Valesca.

"A relação entre feminismo e erotismo é perigosa, inclusive para a Valesca. Ela se diz feminista, mas será que é mesmo? (...) A 'cantora' afirma o corpo como espaço de liberdade, mas ele pode ser uma prisão, neste caso, porque o objetivo é conseguir bens materiais".

Não chega a ser uma prostituição, mas é um jogo perigoso", diz Mariana. A mestranda acrescenta que as funqueiras trabalham a temática da mulher interesseira, em vez de buscar a verdadeira autoafirmação social, como seria de praxe nas verdadeiras feministas. 

Duas autoras do blogue Feminismo Sem Demagogia, Verinha Dias e Samantha Pistor, deliraram e escreveram no seu texto "O funk e o feminismo", publicado no blogue Escreva Lola Escreva, de Lola Aronovich.

Verinha e Samantha supostamente admitem que as funqueiras surgiram numa sociedade machista, mas elas, talvez por uma interpretação errada do feminismo, acreditam que elas "estariam superando essa condição".

Não se sabe se é por boa ou má-fé, elas creditam como "feminismo" nas classes populares o simples fato de mulheres falarem mal de homens e participarem de eventos ao lado de homossexuais estereotipados e caricatos. 

"Não tem como negar o discurso feminista embutido nessa canção. Valesca dialoga essencialmente com a mulher de baixa renda, com a mulher que mora em comunidades, com a mulher que, por desconhecimento, ainda acha que deve obediência e submissão ao seu homem. 

Esta mulher, que não conhece Simone de Beauvoir ou Virginia Woolf, é atingida. Conhece o feminismo a partir das canções de Valesca", foi o que as duas escreveram, de forma delirante.

Mariana não quis exaltar o feminismo. Pelo contrário, seu trabalho, embora não tenha como objetivo combater a hegemonia do "funk carioca", tem a iniciativa de questionar esse suposto feminismo, na medida em que ele apenas serve de pretexto para alimentar o mercado erótico através de uma postura falsamente independente.

Até porque, sabemos, o "funk carioca" é machista por excelência, e são machistas os patrões e "descobridores" dessas "ídalas" do "funk". Portanto, são três mal-entendidos que não trazem qualquer tipo de objetividade. 

O "funk carioca" fala tanto em querer "combater o preconceito" mas adota uma atitude de interpretar mal as coisas que tem tudo de preconceituoso, na medida em que vê as coisas de forma pré-concebida e sem qualquer verificação.

Com isso, conclui-se que o "funk carioca" só existe para levar vantagem às custas de qualquer coisa, aproveitando-se tanto da ignorância do povo pobre quanto da sede de paternalismo de uma intelectualidade dita "sem preconceitos" mas que esconde para si os mais tenebrosos preconceitos sociais, como versões politicamente corretas do Justo Veríssimo.
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*Alexandre Figueiredo colabora periodicamente com este espaço virtual. O jornalista é responsável pelos blogs O Kylocyclo e Mingau de Aço.
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