sábado, 18 de maio de 2013

Por que o Rock Brasil pode se integrar à MPB e o brega não?



Por Alexandre Figueiredo*
Facebook.com/alexandre.figueiredo

>> Quem sintoniza as FMs de MPB no Brasil sabe que boa parte de seu cardápio musical é composta de artistas do rock brasileiro que se tornaram bastante populares e conhecidos.

São músicas dos Titãs, RPM, Capital Inicial, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Arnaldo Antunes, Engenheiros do Havaí e muitos outros, inseridos entre nomes como Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa, Elis Regina e Tom Jobim.

A princípio, isso parece muito estranho, afinal o Rock Brasil surgiu como negação ao estágio de mesmice que a MPB sofria na década de 80, com artistas obrigados a gravar discos todo ano dentro de fórmulas mais comerciais e viajar para Los Angeles para gravar ou assistir à mixagem. 

Nessa época, a MPB passou por uma crise porque a indústria fonográfica quis se intrometer na geração que renovou a música brasileira nos anos 60 e 70. Muitas baladas românticas, boa parte delas maçantes, eram feitas, visando cumprir as normas dessa indústria.

Isso ocorreu em 1979 e 1982 e fez com que muitos artistas bem intencionados, como Guilherme Arantes, Zizi Possi, Dalto e Marcos Sabino fossem ridicularizados, de maneira injusta.

Afinal, eles têm competência e talento, mas tiveram o azar de surgirem tendo que cumprir imposições das gravadoras e atravessar os anos 80 gravando, a contragosto, arranjos pasteurizados e composições xaroposas que afastaram o público juvenil que eles queriam representar.

MPB acomodada

Dessa forma, a MPB jovem não era ouvida por jovens, que preferiram o Rock Brasil como alternativa à mesmice da MPB, pela música empolgante e pela temática próxima da realidade dos jovens de então.

O tempo passa e tivemos reviravoltas artísticas de Titãs, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso se aproximando da boa MPB, redescobrindo a MPB setentista ignorada pela indústria e mostrando sambas, bossas e maracatus para o público juvenil.

Discos como 'O Blesq Blom", dos Titãs, 'Selvagem', dos Paralamas do Sucesso e 'O Descobrimento do Brasil', da Legião Urbana (que inseriu composição de João Bosco como incidental da música "Perfeição"), mudaram a mente da juventude quanto à música brasileira.

Há também de se destacar o dueto do RPM com Milton Nascimento no compacto em 12 polegadas das músicas "Feito Nós" e "Homo Sapiens", pioneiro dessa tendência. Afinal, o mal não estava na MPB em si, mas numa fase de acomodação daquela "MPB" que o mercado jabazeiro de gravadoras e rádios impunha. E, no fundo, o Rock Brasil sempre teve muito de MPB em seu DNA.

A geração do Rock Brasil é de pessoas que passaram a infância e a adolescência conhecendo o movimento da Tropicália, e a princípio não tinham preconceito com a MPB, mas desejavam fazer coisa diferente, já que ouviram muito os artistas de rock estrangeiros.

O decorrer do tempo mostrou que o Rock Brasil expressou uma diversidade musical muito grande e uma veia criativa que fazia com que o nosso rock não parecesse cópia alguma com o que era feito na Europa.

Não fossem as limitações técnicas e alguns problemas próprios do subdesenvolvimento e do provincianismo que atingem até mesmo a mídia, o Rock Brasil talvez tivesse o mesmo impacto de originalidade que o rock britânico, bastante diferenciado em relação aos EUA, berço do gênero.

E os bregas? 

Se o Rock Brasil hoje se encontra integrado à MPB, mesmo sendo aparentemente inspirado num ritmo estrangeiro, por que o brega não tem condições, apesar do clamor contrário, de também se integrar à MPB?

O que se vê nos bregas que criam arremedos tanto de ritmos estrangeiros quanto de brasileiros, do "brega de raiz" ao "funk carioca", é um grande preconceito que eles têm da MPB autêntica, sentido muito antes deles reclamarem do suposto preconceito da MPB contra eles.

Até que existe um grande lobby que tenta, à força, juntar bregas e MPB no mesmo balaio, mas tudo parece postiço, artificial e tendencioso, vendo a mediocridade artística que tais ídolos representam.

Afinal, eles não contam com a mesma naturalidade criativa dos roqueiros brasileiros e até mesmo sua "brasilidade" é mais formal. "sertanejos" fazem pastiche de música caipira sonhando mais com Nashville do que com o sertão brasileiro.

Da mesma forma, "pagodeiros românticos" fazem pastiche de samba sonhando com uma casa em Miami. Eles só aderem à MPB de forma tardia, geralmente pegando carona em algum medalhão, gravando covers e apelando para a ajuda de outros arranjadores e produtores para "embalazar" seu repertório.

A "informação" que eles têm é meramente radiofônica, numa época em que rádios FM "populares" são controladas por políticos e latifundiários. Quando muito, são os últimos a saber das tendências da MPB através de conversas nos bastidores do 'show business'. 

A adesão que esses ídolos têm à MPB não é espontânea e nem acrescenta muita coisa em relação ao que foi feito na música brasileira. Pior: as versões de MPB costumam ser piores e a fórmula pasteurizada não é melhorada pelo "apelo popular" maior dos bregas.

É verdade que existe um lobby muito grande para jogar a música brega no elenco da MPB, baseado em teorias paternalistas e um tanto equivocadas sobre "diversidade cultural" que só servem para legitimar o comercialismo musical dos bregas como algo além de modismos.

Não se sabe por que cargas d'água as rádios de MPB sobrevivem sob intensas pressões para fazê-las reduzirem a meras sínteses das rádios popularescas do momento, pressões pela suposta "popularização" dessas emissoras.

Existe até mesmo a tendência de muitos ídolos brega-popularescos se sentirem ofendidos, sob a solidariedade de fãs e até da nossa 'intelligentzia', quando alguém diz que "eles não são MPB". Acham que são "verdadeira MPB" porque lotam plateias com facilidade.

Só que MPB, mais do que ser "popular", é produzir conhecimentos, valores artísticos. É a expressão do saber. Mas o que se vê por aí sob o rótulo de "popular" é o contrário, é a expressão do não-saber, que a simples inclusão no primeiro time da MPB dos ídolos da moda não consegue resolver. 

Afinal, a experiência mostra que vários desses ídolos bregas, como o dos anos 90, ainda pareciam calouros de auditório em 20, 30 anos de carreira, tamanha a mediocridade artística que possuem e que faz, por exemplo, "pagodeiros românticos" só descobrirem Wilson Simonal muito tardiamente. 

E, quando gravavam sucessos da MPB, era sob tanta ajuda de produtores, arranjadores e compositores que o mérito não se deve dar para os ídolos bregas, mas para aqueles que estão por trás de sua cosmética artística atual.

Daí que o brega não consegue mesmo ser reconhecido como parte da MPB. O brega não é capaz de se sintonizar com as tendências do momento e sua formação não vai além da indigência radiofônica comercial. Não existe espontaneidade nem criatividade no brega. Só existe mercado, modismo e tendenciosismo. Só.
...

*Colaborador deste espaço virtual, o jornalista Alexandre Figueiredo é também editor dos blogs O Kylocyclo e Mingau de Aço.
.