sábado, 8 de junho de 2013

Intelectualidade compactua com mau gosto cultural‏


Por Alexandre Figueiredo*
alexfig.floripa@gmail.com
Facebook: alexandre.figueiredo

>> Sabemos que a mediocrização cultural brasileira, vigente desde meados dos anos 60, tornou-se hegemônica nos anos 90, criando uma reação da crítica e dos músicos que viam condenados ao limbo a criatividade da MPB autêntica e as ousadias do Rock Brasil. 

Eram artistas ou celebridades sem vontade própria, sem qualquer visão de mundo coerente, de talento ou nível intelectual de medíocres para ruins, que geram investimento barato em publicidade na mídia e são maleáveis às imposições do mercado e de outras circunstâncias, que despertavam reação de jornalistas, músicos, atores etc. 

Quem não se lembra do famoso texto que, em junho de 1999, o jornalista musical Mauro Dias escreveu em O Estado de São Paulo, intitulado "O massacre cultural sem precedentes", prenunciando a supremacia da breguice cultural já crescente naqueles tempos? 

Quem não se lembra de Arnaldo Jabor, antes da atual fase ranzinza, condenar a pornografia na música brasileira através do É O Tchan? E Dioclécio Luz, antes de arrumar problemas com um texto sugerindo apologia ao bullying na Turma da Mônica, dizendo lucidamente que não se faz revolução social com breganejo? 

Ruy Castro e José Ramos Tinhorão orquestravam toda a reação de jornalistas, músicos e celebridades contra a cafonização da cultura popular, em argumentos polêmicos, mas na maioria das vezes lúcidos e coerentes, embora mal compreendidos hoje em dia. 

Da noite para o dia, tudo mudou

Reações assim eram intensas no final dos anos 90, vide a preocupação com o fim de milênio e a virada de século que fazia com que a opinião pública se preocupasse com os retrocessos na cultura brasileira, não só na música, mas no entretenimento e no comportamento em geral. 

O cenário era tal que até mesmo na MTV, que havia aderido ao brega-popularesco pouco antes, passou a exorcizá-lo em programas como "Piores Clipes do Mundo", seja sob o comando de Marcos Mion, seja com João Gordo (Ratos do Porão), em que ídolos bregas como Zezé di Camargo & Luciano, Grupo Molejo e É O Tchan eram ridicularizados através dos clipes. 

Mas, de repente, começando o novo século e o novo milênio, a situação mudou da noite para o dia. A partir de nomes como Paulo César Araújo, historiador baiano radicado no Rio de Janeiro, a mediocrização cultural passou a ser defendida por uma geração de intelectuais como sinônimo de "livre expressão popular". 

O sociólogo baiano Milton Moura já havia feito uma prévia disso, escrevendo, em 1996, o texto "Esses pagodes impertinentes..." numa publicação acadêmica da UFBA, "Textos de Cultura e Comunicação", em que fazia uma defesa do "pagode" de grupos como É O Tchan e Companhia do Pagode, xingando de "elitistas" quem reprovasse tais grupos, com um quê de tolos, grotescos e pornográficos. 

O texto de Milton Moura, astro local da intelectualidade dominante de Salvador, é um delírio porralouca, em que aparecem teses absurdas como creditar como "criatividade" o fato de vários grupos "pagodeiros" gravarem seus discos às pressas. 

No reboque de Moura, veio o antropólogo Roberto Albergaria, outro astro da 'intelligentzia' local, que num texto de apresentação acadêmica na UFBA, creditou como "feministas" as periguetes - normalmente seguidoras de valores machistas - que vão aos eventos de "pagodão" baiano sem a companhia de homens. 

Aí veio toda uma geração de intelectuais que passou a fazer apologia à decadência sócio-cultural das classes populares como se fosse "livre expressão das periferias". Com argumentações confusas mais sofisticadas, através dos mais diversos instrumentos e formas de linguagem, eles adotam uma justificativa padronizada em defesa da breguice hegemônica em nosso país. 

De documentários a resenhas de discos, de monografias acadêmicas até reportagens de TV, passando por retóricas "inspiradas" no New Journalism de Tom Wolfe e na "História das Mentalidades" de Marc Bloch - a primeira, dando um trato literário às reportagens, a segunda, criando uma narrativa histórica além dos limites da fama e da política - , a intelectualidade passou a se dotar de um poderoso arsenal de defesa da mediocrização cultural que domina o mercado e a mídia no país. 

"Bons selvagens"

São argumentos que falam na apologia ao "mau gosto" como "princípio fundamental" da cultura popular, através de uma visão etnocêntrica sobre o povo pobre, visto como um bando de "bons selvagens". 

Da maneira das velhas mães que empurravam remédio ruim para a goela de seus filhos, a intelectualidade dominante passou a dizer, em uníssono, que "não somos obrigados a gostar ou não gostar da breguice, mas temos o compromisso de reconhecer seu indiscutível (sic) valor artístico-cultural". 

O "funk carioca" tornou-se um dos carros-chefes dessa "choradeira" discursiva, mas o brega, como um todo, criava todo um padrão ideológico que promovia a glamourização da pobreza e a apologia da degradação de valores sócio-culturais como "valores superiores" das classes populares. 

Alegações de validade bastante duvidosa eram feitas, como "o que a gente entende por decadência de valores sócio-culturais, para o povo das periferias é felicidade", numa clara corrupção da ideia acadêmica de aceitação do "outro". Pior: alegações desse porte conseguiam arrancar aplausos de plateias desavisadas das engenhosas armadilhas discursivas de nossa 'intelligentzia'. 

Isso produziu uma geração de intelectuais-estrelas que foram para a televisão defender aquilo que rende lucros extraordinários ao mercado. Afinal, defendia sub-artistas e sub-celebridades como se fossem os "novos heróis das periferias", assinando embaixo na mediocrização de custo barato e sem personalidade forte que a grande mídia já empurrava para o gosto popular consumir. 

E aí vieram atitudes constrangedoras de atores de televisão ou de medalhões de MPB e Rock Brasil aparecer ao lado de algum breguinha de ocasião, como as pessoas das elites circulam com seus mascotes de estimação. 

Ficou algo humilhante, e em vez de ser uma manifestação de apreço à cultura do povo pobre, isso está mais para uma propaganda do paternalismo das elites sobre o que elas entendem por "cultura do povo pobre".

Isso cria sérios problemas, na medida em que a cultura do povo pobre de antes havia sido bem mais rica, consistente e forte do que a dita "cultura do povão" atual, hoje é vista contraditoriamente como "passadista" e "nacionalista demais" ou como "elitista" e "sofisticada". 

Intelectualidade sem "preconceitos", mas altamente preconceituosa

A intelectualidade dominante de hoje se orgulha em ser "sem preconceitos", mas nem por isso deixa de ser bastante preconceituosa, sendo seus preconceitos piores do que aqueles que diz combater. Hoje há um medo enorme da intelectualidade de ver o povo pobre fazendo novamente sambas, maracatus, modas de viola, cocos, baiões, lundus, maxixes e outros ritmos com a força de outrora.

Até mesmo um dirigente funqueiro adotado pela intelectualidade, MC Leonardo, presidente da pretensiosa APAFUNK (Associação de Profissionais e Amigos do Funk), chegou a dizer que a juventude das periferias "não tem compromisso" de assumir a herança cultural de seus pais. 

Usando o "funk carioca" como medida para todas as coisas, adotando uma visão "funkocentrista" (talvez ele admita a origem do universo, desde que associada ao "pancadão"), MC Leonardo só admite a validade do jongo (um dos ritmos variantes do samba brasileiro) como coadjuvante da supremacia do "funk carioca" sobre as periferias.

A intelectualidade brasileira prefere, a exemplo do rico moleiro do conto "O Amigo Dedicado", do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), tomar para si as antigas riquezas sócio-culturais do povo pobre, enquanto lhe dão em troca os subprodutos da grandes corporações da mídia do entretenimento que os pobres terão que assumir como "cultura popular", com valores decadentes e confusos que em muitos aspectos dizimam identidades regionais e rompem e corrompem com os vínculos comunitários originais.

Um exemplo é a tendência da intelectualidade aceitar o baião apenas na forma de expressões terceirizadas de jovens universitários urbanos, de classe média alta, enquanto o povo pobre do Nordeste toma como "cultura regional" um engodo rotulado de "forró eletrônico" que somente mistura disco music, country, ritmos caribenhos com o som do acordeon típico da...música gaúcha.

Essa compreensão de "cultura popular" cria outros problemas, como creditar como "feminismo" a vulgaridade feminina de "popozudas", "peladonas", "paniquetes" etc, só porque elas aparentemente fazem sucesso sem a companhia de homens. Só a defesa dessa vulgaridade cria problemas até mesmo com os movimentos sociais tão "defendidos" pela intelectualidade. 

A jornalista Bia Abramo, de uma família importante no ramo e que havia se tornado famosa a partir da revista Bizz, causou sério problema quando, ao defender o "funk carioca", preferiu estar no lado das "proibidas" que ridicularizaram as enfermeiras através de paródias pornô das mesmas do que dessas profissionais que moveram o processo contra uma dessas "popozudas".

Só esse episódio dá o tom do que pensa a intelectualidade dominante acerca da cultura popular. Para ela, é "bonito" ver o povo pobre rebolando o "funk" até "cair no chão", dançar o É O Tchan e sorrir feito um pateta. "Bonito", para ela, é ver idosos bêbados dançando e balbuciando feito débeis-mentais, porque lhes soa como uma "saudável (?!) sabedoria (?!?!) pop".

No entanto, quando o povo pobre deixa de fazer esse papel caricato, debiloide e subserviente ao mercado e a mídia, a intelectualidade se apavora, quando vê o povo pobre se manifestando seriamente, lutando por melhorias reais em sua vida.

Como, nesses casos, não se trata de espetáculos da cafonice alegremente idiota, a intelectualidade morde os beiços, deixando explodir, como vulcões que voltam à ativa depois de adormecidos, seus preconceitos sociais contra o que entendem como a "ralé insuportável".

Se o compromisso da intelectualidade de hoje, em vez de discutir os problemas da cultura popular brasileira, é tão somente reafirmá-los e legitimá-los, então o nosso país está com um sério problema, na medida em que as elites pensantes nada contribuem de concreto para a melhoria cultural do país, ao compactuarem com o "mau gosto" cultural em que o termo "popular" virou desculpa para que se permita qualquer baixaria a ocorrer nos cenários e contextos das periferias.

*Jornalista e editor dos blogs progressistas O Kylocyclo / Mingau de Mingau de Aço, Alexandre Figueiredo escreve periodicamente neste espaço virtual. 
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