sábado, 9 de novembro de 2013

O histórico apito do centro de Juiz de Fora



Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
cacarejadavirtual


>> O centenário apito do meio-dia permanece marcando pontualmente um dos fatos mais icônicos de Juiz de Fora. Registrado como bem cultural imaterial do município, a tradição colocada em prática pela Joalheria Meridiano resiste aos avanços dos novos tempos em uma movimentada galeria no calçadão da Rua Halfeld, no centro da cidade, também conhecida como "carioca do brejo".

Mesmo tendo mudado de endereço há cerca de um ano, proprietários do estabelecimento encarregaram os responsáveis por uma oficina de conserto de relógios e similares ao lado pela continuidade do dispositivo (foto), espetado no topo de um dos primeiros prédios de JF. "O apito não pode parar"  garante o empresário Roberto Villela Vieira, um dos herdeiros da joalheria.

Acompanhe no vídeo feito por este blog o exato momento em que Alexandre Faria, 38 anos, funcionário da oficina dispara o imponente alarme.



Da maior importância

O dispositivo, cujo som estridente e cavernoso pode ser ouvido a mais de um quilômetro de distância, confunde-se  com o próprio cotidiano de Juiz de Fora desde 1927, instalado por Arthur Vieira, então proprietário da  Joalheria Meridiano.

Em 2004, a prefeitura oficializou o reconhecimento de sua importância cultural para a cidade. Conforme registros históricos do município, "a permanência da sirene é um dos mais importantes  elementos da vida urbana de Juiz de Fora." A instalação do apito estendeu-se a partir de uma comemoração inaugurada em 1922 pelo Colégio Cristo Redentor, em homenagem ao centenário da Independência do Brasil.

Fabricado pela  General Eletric, o equipamento seguia rigorosamente o horário de Londres, na Inglaterra, transmitido via rádio até a Zona da Mata mineira. O tempestuoso som era acionado faltando trinta segundos para o meio-dia alardeando sua mensagem durante um minuto.

Proibidão

Além de sinalizar a hora certa, a histórica sirene também tinha outras finalidades. Antes do rádio e da TV, por exemplo, era uma das alternativas para alertar moradores do centro da cidade em casos de calamidade público ou incêndios.

Em fevereiro de 1942, a ruidosa sirene também foi acionada várias vezes para anunciar a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Um decreto presidencial, no entanto, determinou a proibição do sinal sonoro não só em Juiz de Fora mas em qualquer outra parte do país.

O objetivo era uma tentativa para que o sinistro aviso não fosse confundido com eventuais alarmes de ataques aéreos. Em 1945, assim que terminou a guerra, a sinaleira voltou há ser disparada diariamente em Juiz de Fora. Menos aos domingos e feriados.

Opiniões divididas

Quem mora ou trabalha nas imediações costuma reclamar do barulho ensurdecedor provocado pelo secular sinal. Outros, no entanto, defendem o fato histórico.

— Se pudesse, eu daria um tiro de escopeta nessa coisa  e desnecessária. Basta a poluição sonora do ultrapassada dia a dia, reclama Eunice Ribeiro Gonçalves, 28 anos, moradora de um edifício ao lado.

 — Sem passado não há presente, nem futuro. Precisamos dessas marcas impagáveis para que a história não pereça diante dos novos tempos, defende Juarez Otávio Moura, 68 anos, ferroviário aposentado, também vizinho do sinal.

Três apitos 

Na música “Três apitos”, Noel Rosa, o Poeta da Vila, faz referência (muito embora por conta de uma paixão supostamente não correspondida) a um dos mais antigos e marcantes sinais sonoros do Brasil:

“Quando o apito da fábrica de tecidos/ Vem ferir os meus ouvidos/ Eu me lembro de você/ Mas você anda, sem dúvida, bem zangada/ E está interessada em fingir que não me vê/ Você no inverno, sem meias vai para o trabalho/ Não faz fé com agasalho/ Nem no frio você crê/ Mas você é mesmo artigo que não se imita/ Quando a fábrica apita faz reclame de você.”

Quase extintos


Pesquisa feita na internet pela produção do blog Cacarejada Virtual constatou que restam poucos apitos do gênero no país. Em Minas Gerais, outra distinta sirene podia ser ouvida até meados dos anos 70, na cidade de Governador Valadares, no Leste do estado.

Era o sinal da Açucareira (foto), antiga fábrica de açúcar desativada. Disparava-se manualmente às seis da manhã, ao meio-dia e às cindo da tarde, horários de entrada, almoço e saída, respectivamente dos operários.

Com duração de sessenta segundos, obedecia impressionante escala sonora que ia de uma melódica flauta doce passando por oito segundos de cada uma das “Quatro Estações”, de Vivaldi, ao uivo arrepiante de um lobo em plena noite invernosa de lua cheia. Como a verdadeira cultura e o patrimônio histórico jamais encontraram espaço merecido em Valadares, conseguiram destruir até o importante registro sonoro.