terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Descanse em paz, amigo Quirino!


Por Marcos Niemeyer


>>  Foi com profundo pesar que recebemos na manhã desta terça-feira (17) a notícia sobre a morte do impagável  Quirino Jota, 78 anos, o "Zé Matuto das Gerais" para os mais chegados, figura popular que tivemos o privilégio de conhecer e conviver momentos inesquecíveis ao lado do mesmo durante a temporada que passamos em Gov. Valadares, no Leste mineiro, há pouco mais de dois anos.

Honesto, folclórico e carismático, era natural de Muriaé, na Zona da Mata, de onde saiu ainda criança para aprender com o pai o ofício de pedreiro. Não sabia ler nem tampouco escrever, mas tinha uma sabedoria de deixar muitos diplomados de queixo caído. 

Na matemática, por exemplo, era o "bicho". Jamais passou ou recebeu dinheiro faltando um centavo sequer. Aliás, o dinheiro dele recebia "segurança" à moda antiga: guardava tudo que ganhava embaixo do colchão estrategicamente protegido por várias e grossas capas de lona. Quando adormecia sobre o "cofre forte", roncava feito um porquinho empapuçado.

Apesar da falta completa dos dentes, "mastigava" torresmo, cana e até coco que nem mamão com açúcar. Mesmo banguela, possuía sorriso cativante. De aspecto físico frágil, Quirino era respeitado nos mais diferentes segmentos sociais da cidade.

Conhecia desde o vendedor de picolé até o "sêo dotô" mais graduado. Durante vários anos foi o responsável pela construção de centenas de edificações. Muros, casas, sobrados e até obras mais complexas costumam receber o aval  do ilustre personagem.

Certa ocasião, no entanto, convidado por Maurício de Souza Lacerda (o 'Sêo' Matraca), proprietário de um pequeno hotel no interior de Minas, cismou de dar palpite na construção de um prédio de três andares em Marataízes, no litoral capixaba, erguido pelo comerciante. "Aqui nóis num percisa de engenhêro. Faço tudo de zói fechado", sentenciou.

Levantaram a obra no "olhômetro" e deram com os burros n' água. Pouco tempo depois de pronto, o prédio desabou feito quem toma escorregão na casca de banana. A sorte dos dois é que os inquilinos do imóvel estavam viajando. Caso contrário, poderiam ter arcado com as consequências da trapalhada em solo capixaba.

Mesmo com a idade praticamente avançada, Quirino bebia, fumava e praticava (pasmem!) saliências sexuais com mocinhas que mais pareciam suas netas.

"Aqui, dexô falá procê, bobo; essas quenga cocê tá veno aqui no meu barraco é tudo de maiori. Antonce oceis num vai pra mode dizê que é prendonfilia. Eu cá tamém num sei o que é esse tar de Viagra, isso só pode cê coisa de viado. Istrurdia fui trabaiá na casa de uma madama vizinha do Marcos Tadeu e ela toda boazuda arresorveu se ingraçá pru meu lado. Fiquei todo moiadinho só de oiá prela. Só num fiz nada quela por causa de conta que o danado do marido dela é um adevogado meu amigo",  anunciava matreiro.

Exímio contador de "causos", Quirino se vangloriava de ter "ensinado" o Rei Roberto Carlos a  tocar violão. "Roberto era meu colega em Caxêro de Itapenerim, sêo otariuuuuus. E amigo do Maurício Lacerda também", tagarelava aos quatro ventos.
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Jamais esqueceremos o Quirino, um tipo urbano cada vez mais raro nesses tempos modernosos. Gostávamos de ficar ao lado dele, jogar conversa fora, "cheirar" o cangote do dito cujo e  zombar do mesmo numa boa: — Zé Matuto, faz um quatro aí pra gente ver (quando ele chegava 'trêbado' 'trupicando' nas pernas).

Aliás, raramente o distinto não pintava no pedaço cambaleando em sua indefectível bicicleta Husqvarna de mil novecentos e antigamente — no mais autêntico desafio às leis da física.

Ele nunca caiu da magrela, mas matava de raiva os motoristas nas ruas da cidade pois fazia questão de pedalar estrategicamente na frente dos veículos. Só não passavam por cima dele em consideração aos seus ralos cabelinhos brancos.

Apesar de suas travessuras, nosso respeito e admiração por aquele admirável ser humano tinham prioridade. E jamais duvidamos que a recíproca era  verdadeira. Separado da família, morava sozinho num quarto localizado na bucólica Ilha dos Araújos, bairro próximo ao centro de Valadares.

Soubemos da morte da inesquecível figura através do amigo Marcos Tadeu, relações públicas de uma empresa de medicina do trabalho em Gov.Valadares e pescador nas horas vagas (costuma passar na feira livre, comprar na surdina o maior peixe e dizer sem mais delongas nas rodas de conversa: "esse eu peguei no anzol!") que postou o aviso no Facebook. "Marcos Niemeyer; o nosso Quirino faleceu, triste. Forte abraço, fica a lembrança do vídeo que você fez dele."

Ao visitar no meio da tarde a Catedral de Notre Dame, em Paris  — onde desembarcamos no início da manhã desta terça-feira para uma rápida estadia — aproveitamos para fazer uma oração pela alma daquele que, sem dúvida, deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. Adeus, Quirino! Descanse em paz. 
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