domingo, 12 de janeiro de 2014

Os patos selvagens e a flatulência voadora


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
cacarejadavirtual


>> Um bando de patos selvagens fugindo do rigoroso inverno europeu em direção aos trópicos invadiu uma das pistas do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, fazendo com que o jato da Air France que nos traria de volta ao Brasil na semana passada ficasse inerte por mais de uma hora, até que as aves fossem afastadas do local e as condições de decolagem autorizadas pelo sistema de segurança aérea da capital francesa, um dos mais eficientes do mundo, permitissem o início do voo. 

Nenhum dos passageiros se estressou diante da informação proferida pelo comandante poliglota da aeronave. Afinal, nesse mundo de tantos dissabores, só mesmo a natureza para reservar espetáculo tão magnânimo. Diante do fato inusitado, pesquisei via Iphone na internet sobre os ilustres visitantes daquela noite gelada.

O pato selvagem macho, conforme o relato da Wikipédia, tem penas verdes cintilantes da cabeça, azul furta-cor na asa e a cauda negra. A fêmea é marrom, os machos conquistam suas fêmeas com bonitos passos de dança.

Eles se empurram, para conseguir a melhor posição e aparecer para as fêmeas. Para se exibir, o macho realiza uma dança baixando a cabeça e erguendo as penas superiores — além de emitir um canto hipnotizante.

Entre grasnadas e assobios, mergulha o bico na água e pavoneia-se, erguendo o peito bem acima da superfície e sacudindo a cabeça de um lado para o outro, respingando gotas de água na direção da fêmea escolhida, e por vezes dobrando o corpo em forma de U, com o pescoço e cauda empertigados.

A fêmea que se sentir atraída chacoalha-se impressionantemente para cima e para baixo e para a frente, como se desse bicadas no ar. Então, os machos rivais percebem ter perdido a disputa, retiram-se ordeiramente e o casal pode, enfim, “deitar e rolar”. Romântico, não?.

Catinguento

O voo de quase doze horas, com escala em Portugal, só não foi dos melhores por conta dos solavancos gerados pela terrível turbulência na travessia do atlântico e de um outro fato ocorrido a bordo. Teve viajante de primeira viagem (inclusive este matuto mineiro) que ficou com o fiofó na mão.

“E se essa porra despencar no abismo? É o mesmo modelo do Airbus que caiu no oceano, em 2009, quando vinha do Rio para a França. "Tamo fudido, num vai ficar um pra contar a história, barbaridade tchê”, apocaliptizou o gaúcho grandalhão que ocupava a vaga ao meu lado.

As aeromoças, que mais parecem atrizes de cinema, circulavam no vasto corredor da veloz gerinçonça a distribuir gestos simpáticos, cardápios balanceados e informações bilíngue sobre a longa viagem.

Já no espaço aéreo brasileiro, entre o Sul da Bahia e o Leste de Minas, por volta das quatro da madruga, senti forte vapor a incomodar minhas sensíveis narinas

Aquele sujeito obeso que roncou durante toda a viagem ao lado da janela voltada para o oriente, soltou indigesta flatulência que emporcalhou todo o cilíndrico espaço a doze mil metros de altura. Era um português com cara de menino pirracento que havia embarcado na escala, em Lisboa.

Peidar nas nuvens "faz bem"

O cara peidava alto e fazia esquisita careta parecendo pai de santo quando recebe uma entidade rebelde. A maioria dos passageiros já havia acordado diante do clarão cinematográfico que surgia no horizonte. Resmungação geral. Até o professor francês que vinha pela primeira vez ao Brasil e lia absortamente Foucault, sentenciou do lado oposto:

“Putain, c'est quoi ce bordel, que pet puant. Ce ne peut être la substance de brésilien.”

“Catinga à parte, mas médicos europeus não disseram que peidar nas viagens aéreas faz bem à saúde?”, ponderou um senhor de meia idade sentado na poltrona do meio em que estava o protaganista da cena.

Ato contínuo, já se avistava as luzes do Rio de Janeiro. O aviso para colocar os cintos de segurança faltando poucos minutos para a aterrissagem no Galeão soou como alívio. O cabra continuava peidando e roncando feito um suíno no lamaçal, em pleno voo da Air France. E não era um brasileiro, ora pois pois...! e sim, um patrício d'além mar.
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