terça-feira, 18 de março de 2014

Cada um vale o que tem ou aparenta ter


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
cacarejadavirtual/


>> A postagem de uma internauta no Facebook sobre o fato de ter avistado recentemente a atriz Lucélia Santos andando de busão na Zona Sul do Rio de Janeiro repercutiu nas redes sociais. O ônibus em questão fazia a linha 524 — Botafogo/ Barra da Tijuca, via Humaitá. Obviamente que a iniciativa da artista não foi por falta de dinheiro.

“Gente, o ônibus tava lotado. Me ofereci para segurar a bolsa da moça. Quando olho (pasmem!) era ninguém menos que Lucélia Santos”, escreveu a jovem. A atriz tomou conhecimento da postagem e publicou em sua página do Face: “O Brasil é o único país que conheço em que andar de ônibus parece algo incorreto.”

De fato, nos países do Primeiro Mundo não é novidade encontrar artistas e outras figuras públicas no transporte coletivo. Em Paris, na França, onde estive a passeio entre o final de 2013 e o início deste ano, encontrei intelectuais, jornalistas, profissionais liberais, professores e renomados artistas no metrô e até andando de bicicleta pelas ruas da cidade. O Primeiro Mundo é outra coisa.

Bem diferente da terra descoberta pelo desocupado Cabral, onde mesmo em cidades do interior o caos provocado pela vias vias entupidas de veículos é uma realidade cada vez mais preocupante.

Isso ocorre, entre outros motivos, pelo preconceito relacionado ao uso do transporte público  deficiente em sua maior parte, e a facilidade em se motorizar com a aquisição do próprio veículo o que leva a maioria ao raciocínio de que fazer uso do transporte coletivo “é coisa de pobre.”

Vivemos numa sociedade hipócrita e niveladora pelas aparências. Se por um lado há facilidade em ter o tão sonhado carro, por outro não significa que existe a mesma facilidade na hora de pagar as prestações do bem adquirido.

Uma prova disso é a quantidade de títulos protestados e o nome no SPC, na Serasa, etc. Conheço muita gente andando de carrão tunado pelas esquinas da vida, mas que deve até os cabelos espetados no orifício terminal do tubo digestivo por onde se expelem os gases e excrementos. 

O que importa, porém, é se o sujeito ou a sujeita estão no comando do volante ou andam “de a pé” ou de busão. Digo isso pela própria experiência.

Após mais de vinte anos sem dirigir por conta de um grave acidente sofrido na Bahia, perdi o medo, tirei nova carteira de motorista e adquiri um veículo popular digno do meu perfil com as economias oriundas da tão suada, sonhada e merecida aposentadoria radiofônica.

Alguns “amigos” que antes me discriminavam ao ver-me circulando “de a pé”, táxi ou transporte coletivo, como se tivesse eu cometido algum pecado ou falha grave, começaram a dizer que às vésperas de completar seis décadas na calejada cacunda este aprendiz de escrevinhador que vos cacareja estava mais “charmoso” , “elegante” “cheiroso” e “esbelto”.

Até a síndica do prédio no centro de Juiz de Fora em que costumo guardar o modesto veículo, uma coroa cuja árvore não aparenta dar mais fruto, lançou a isca: “O senhor está bem pintoso, Sêo Marcos.” Tudo por conta de um simples carrinho. Imagina se fosse um carrão. Ô povinho desgraçado, sô!
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