terça-feira, 13 de maio de 2014

A visão preconceituosa sobre o preconceito



Por Alexandre Figueiredo*
alexfig.floripa@gmail.com
facebook.com/alexandre


>> Suponhamos que alguém está em 1990. Ligando o rádio e a televisão, ele se depara com uma série de atrações consideradas idiotizantes e apoiadas por uma mídia controlada por políticos, oligarquias regionais e por latifundiários.

São personalidades caricaturais que se tornam famosas por nenhum motivo relevante, se tornando verdadeiras inutilidades ambulantes, a fazer qualquer coisa para permanecerem em evidência.

São músicos e cantores medíocres, em muitos casos ruins mesmo, que exibem sua canastrice musical interpretando composições malfeitas, mal-arranjadas e não raro dotadas de letras extremamente ruins que não raro nem sequer encaixam direito nas melodias. 

São mulheres que levam ao exagero a "vocação" de exibir seus corpos "avantajados", compensando a abundância física com uma personalidade não somente superficial, mas em muitos casos tola e sujeita a gafes constrangedoras.

São apresentadores de TV broncos ou humoristas sem graça, os primeiros se apoiando num moralismo populista, ao mesmo tempo vingativo e sensacionalista, os segundos criando qualquer bobagem para se apoiarem em bordões que somente os menos esclarecidos e os menos informados riem com empolgação.

Neste país, se tem uma opinião pública que, mesmo sem Internet, começa a questionar esses absurdos midiáticos, estimulada pelos ventos democráticos da época.

Além disso, quem fosse universitário poderia ver os artigos de intelectuais renomados que contestavam a "cultura de massa" da época, marcada por tendências cafonas, em certos casos risíveis, em outros constrangedoras, que criam uma situação vergonhosa para uma cultura popular subordinada ao poderio político-midiático.

Esse alguém, vendo as análises desses casos, volta para casa, tranquilo, e dorme, sabendo que, pelo menos, nossas elites pensantes sabem muito bem discernir o que é idiotização e o que é expressão das classes populares, porque sabe que a cultura do povo pobre já apresentou expressões de indiscutível valor.

Digamos que esse alguém se isole por duas décadas desse país e só possa saber alguma coisa cerca de 24 anos depois. Depois de tanto tempo, essa pessoa se abre para o país que tornou a desconhecer depois de algum dia de 1990.

Idiotização virou coisa "libertária" 

A surpresa negativa é grande e a decepção também. Aquilo tudo que a pessoa entendia como idiotização, cafonice e sensacionalismo não só continua prevalecendo como se expandiu para espaços mais conceituados da mídia e do entretenimento.

Aquilo que só era visto nas piores emissoras de televisão aberta passa a invadir até alguns espaços refinados da TV por assinatura. E o nível de pretensão de toda a breguice que já era dominante na mídia popular de 1990 aumentou consideravelmente.

Para piorar a situação, esse alguém consulta os textos jornalísticos, acadêmicos e mesmo algumas declarações de ativistas, artistas e celebridades e tudo aquilo que era considerado idiota, brega e ridículo passou a ser defendido, até com certo radicalismo e persistência, como se fosse algo "libertário" e "fascinante". Mudou o país ou mudamos nós?

A situação chegou ao surrealismo de definir a idiotização cultural de outrora como se fosse "a verdadeira cultura popular", com uma campanha retórica estarrecedora e bastante engenhosa.

Uma das principais alegações dessa campanha habilidosa é que essas tendências supostamente populares mas claramente respaldadas pelo poder político-midiático — é que seus ídolos são "vítimas de preconceito", uma desculpa usada para tais ídolos serem levados a sério (e até a sério demais).

A manobra psicológica é essa: creditam-se os ídolos "populares" como pretensas vítimas de preconceito para que a sociedade se comova e públicos considerados conceituados aceitem toda essa breguice que hoje chegou até aos condomínios de luxo dos grandes centros urbanos.

É só qualquer um aceitar a breguice dominante para que seja considerado pelo status quo social como alguém "sem preconceitos", mesmo não entendendo bulhufas sobre o que tal ou tais ídolos cafonas estão realmente fazendo.

Até porque nem eles sabem o que querem realmente fazer na vida. Essa visão prevaleceu porque não houve quem, com visibilidade suficiente para influir na maioria da opinião pública, pudesse contestar essa visão de "preconceito", que na verdade nada tem de generosa e esconde preconceitos ainda piores. Preconceito é um juízo pré-concebido das coisas.

É uma definição dada a alguma coisa ou pessoa sem conhecê-la de fato. É verdade que muitos preconceitos são discriminatórios e causam diversas injustiças, mas a forma como se dá essa visão corrente de "preconceito" camufla preconceitos piores.

Intelectuais sem "preconceitos" mas, preconceituosos

Na verdade, a própria intelectualidade cultural que predomina em nosso país, de pensadores e ativistas que pensam pouco e agem menos pela cultura, é que é terrivelmente preconceituosa, mais do que ela mesma pode imaginar.

Gente "sem preconceitos", porém bastante preconceituosa. Afinal, defendendo a bregalização cultural, que predomina sobretudo na mídia e no mercado sob o rótulo de "popular", não se está rompendo com verdadeiros preconceitos, mas estabelecendo preconceitos ainda piores do que qualquer elitista doentio.

E um preconceito pior ainda porque é tido como visão "generosa" e "positiva". A bregalização envolve aspectos como o atraso sócio-educacional das classes populares e a exposição do povo pobre ao ridículo.

Envolve elementos da "cultura de massa" assimilados pelo povo de forma confusa e sem espontaneidade, sob influência de uma mídia "popular" controlada por grandes proprietários de terras, grupos políticos e oligarquias empresariais locais.

Em outras palavras, a bregalização sócio-cultural transforma o povo pobre numa caricatura de si mesmo, num estereótipo, numa visão que agrada às elites preconceituosas. Na bregalização, o povo pobre é manipulado para o consumismo e para uma falta de identidade cultural, através da manipulação de desejos, pretensões, vontades, debilidades etc.

Além disso, o discurso de defesa apela para definir, como "ideais de vida", a prostituição, o alcoolismo, o subemprego e o semi-analfabetismo, numa demonstração de claro purismo de seus defensores.

Essa visão se baseia no mito elitista de que "a pobreza é linda", o que mostra um preconceito cruel, perverso, que mostra as favelas como "arquitetura pós-moderna" para atrair o consumismo turístico convertendo áreas problemáticas em "paisagens de consumo" para o gozo esnobe dos endinheirados politicamente corretos. Aí se vê numa armadilha.

A bregalização, com esse papo de "ruptura do preconceito", amplia mercados às custas da glamourização da miséria, da ignorância ou mesmo da moralidade, alimentando a vaidade de elites intelectuais paternalistas que se autopromovem com essa demagógica assistência aos pobres pela aceitação da breguice.

O "funk" é um bom exemplo de como o discurso de "ruptura de preconceitos" esconde preconceitos sociais ainda piores, bem mais perversos e cruéis. E que pode ser, em certos casos, até criminoso. Isso porque o "funk" leva às últimas consequências toda a apologia da pobreza, da miséria, da ignorância e da imoralidade. 

Transforma suas "musas", sejam as MC's, sejam as "popozudas", em falsas feministas, quando elas estão a serviço de valores machistas, de um estereótipo machista da "mulher emancipada".

O aspecto criminoso se dá pela defesa de um ritmo que , num discurso sutil, prega o fim do policiamento nas favelas, a pretexto da generalização da violência cometida por parte da polícia.

Mas crime pior é vincular o "funk" à negritude, já que, entregando o povo negro aos estereótipos ligados ao ritmo, estaria na verdade cometendo racismo, sobretudo quando, através dos mitos trabalhados pelo "funk", se prega que os jovens negros e pobres não podem ser outra coisa senão jogadores de futebol, prostitutas, funqueiros e camelôs. Isso é muito grave. 

Mas a banalização do discurso de "coitadismo" faz com que os partidários da bregalização sócio-cultural em geral, numa aparente tranquilidade, confiem em suas convicções tortas, achando que estão "rompendo com os preconceitos sociais" aceitando as barbaridades que defendem.

Por isso temos uma visão preconceituosa do que é "preconceito" e uma visão ainda mais preconceituosa do que é "ruptura de preconceitos". O povo pobre não pode mais se expressar como outrora, virando escravo de uma visão caricata e estereotipada que é legitimada até por monografias de pós-graduação e documentários de cinema.

Neste sentido, as pessoas que se acham "sem preconceitos" deveriam prestar atenção no que dizem e escrevem, porque, defendendo a bregalização sócio-cultural, criam novos e perversos preconceitos, que podem gerar consequências graves para tais elites ditas pensantes.

*Alexandre Figueiredo é jornalista e editor dos blogs O Kylocyclo e Mingau de Aço. Colabora eventualmente com o Cacarejada Virtual escrevendo artigos sobre diversos temas.
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