terça-feira, 6 de maio de 2014

Canastrice neo-brega agora é "música respeitável"


Por Alexandre Figueiredo*
alexfig.floripa@gmail.com
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>> Com o poderoso lobby que reúne empresários, intelectuais, jornalistas, executivos de mídia, publicitários e acadêmicos, a bregalização cultural do país tornou-se não somente a força hegemônica de 20 anos atrás como agora consiste num quase monopólio.

A situação ficou de tal forma tão dominante que até mesmo iniciativas constrangedoras como fazer um mashup  mixagem que junta músicas diferentes numa só  de É O Tchan com a voz do ex-Smiths Morrissey, algo tão ofensivo quanto oferecer um hambúrguer para este cantor inglês, vegetariano convicto. 

Vários "engraçadinhos" com esse papo de "provocação" surgiram de todos os cantos, e logo após o episódio da "funqueira pensadora", um grupo de "funk" vindo do nada foi escolhido para abrir uma exposição sobre Le Corbusier e Josephine Baker, pasmem vocês!!

Além disso, há todo o forçamento de barra em empurrar breguices para o público alternativo, não bastassem um cem número de reportagens, artigos, monografias, documentários e outros discursos só para dizer que é "legal o Brasil ser brega". E isso inclui, evidentemente, a elevação a um posto máximo de suposta respeitabilidade a geração de neo-bregas que se ascendeu entre o final dos anos 80 e o começo dos anos 90. 

Nem é preciso dizer os nomes, porque são muito conhecidos. São os ídolos do "pagode romântico" e do "sertanejo", que povoaram o imaginário brega da Era Collor e eram as atrações musicais principais das FMs cujos donos as haviam recebido de presente de Antônio Carlos Magalhães e José Sarney.

Eles eram o que considerávamos, em boa parte, a baixaria musical que rolava nas paradas de sucesso do país. Eles nem de longe correspondiam a algo respeitável na nossa música, e ninguém cogitava em associá-los sequer ao terceiro escalão da MPB!!

Era o que acontecia com o 'poser metal', nos EUA, que era motivo de risadas, diante de tantas maquiagens e roupas espalhafatosas, repertório afetado e por vezes piegas e um comportamento forçadamente (e caricaturalmente) roqueiro. 

Mas, tanto aqui quanto ali, de repente tais ídolos que causaram e ainda causam constrangimento agora gozam de tanta "respeitabilidade" que hoje é até um risco de alguém falar mal deles sem receber uma réplica agressiva de troco.

Nos EUA, o 'poser metal', também conhecido no Brasil como "metal farofa", e que é uma espécie de rock pesado 'fake', passou a ser tido como "rock sério" por uma indústria roqueira que viu dinheiro surgir que nem capim por causa do público feminino e adolescente, não muito diferente dos Menudos de outrora e One Directions de hoje.

Aqui, seguindo a mesma tendência, o "pagode romântico", ou "sambrega", passou a ser visto como "samba sério", mesmo quando muitos de seus músicos não saibam a diferença entre samba-de-roda e samba de gafieira, ou entre lundu e jongo.

E os "sertanejos", então, são até inocentados da culpa dos excessos cometidos pelos "pegadores" das gerações mais recentes, mesmo quando músicas como "Cerveja", de Leandro & Leonardo, já prevessem todo esse clima dos ditos "universitários".

Eles agora são "música de raiz", posam pondo a cabecinha encostada num violão, de olhos fechados e sorrindo, como se isso fosse nos convencer de alguma coisa. Mas convence muita gente. Sobretudo aqueles mais jovens, que não sabem metade das coisas que acontecem no mundo e pegaram o trem da história sem ter a menor ideia do percurso feito antes dessas pessoas nascerem.

O grande problema é que esses nomes musicais continuam sendo de uma canastrice sem tamanho. Alimentam sua reputação com repertório de covers de MPB, como se isso adiantasse alguma coisa. É como se, num trabalho escolar, os alunos copiarem textos de grandes autores, em vez de criar decentemente alguma coisa própria. 

Pegar carona nos grandes mestres é muito fácil. Só que isso não impede que os canastrões da "geração 90" dos "pagodeiros" e "sertanejos" que não têm ideia do que é a história do samba e da música caipira sejam bem tratados até mesmo em espaços sobre MPB nas mídias sociais. Isso mostra o quanto a mediocridade está se institucionalizando de tal forma que ela agora virou "genial".

E hoje quem tem qualidade é que sofre o verdadeiro preconceito, os verdadeiros nomes da MPB é que são escorraçados por aqueles que têm o cinismo de querer que "se perca o preconceito contra o brega".

É verdade. Chico Buarque, Turíbio Santos, Sylvia Telles, Toninho Horta, Dick Farney, Noite Ilustrada, Jorge Veiga são os verdadeiros nomes, de ontem e de hoje, que são vítimas de preconceito dos ditos "sem preconceito", que querem o reconhecimento do brega mas não reconhecem a boa música, que julgam "muito chata".

Enquanto isso, os bregas passam a ser tão respeitáveis que o "Rei do Jabá" Michael Sullivan, depois que tentou destruir a MPB, agora quer ser o novo "Tom Jobim".

Sullivan chega a posar junto de nomes de respeito como Sérgio Ricardo, mas poucos se esquecem que o produtor, que chegou a domesticar Raimundo Fagner, iria nos anos 80 transformar Sérgio Ricardo, ativo compositor de trilhas como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, num sub-Lionel Richie.

Devemos ter maior respeito com a MPB. Aceitar tantas canastrices vindas dos cafundós do brega não ajuda em coisa alguma para a verdadeira valorização da música brasileira. Isso é mais uma atitude de comodismo, de passividade e complacência, de pensar o folclore do futuro através da confortável valorização do "jabá". 

Mas isso não fará os bregas melhores nem trará justiça para a MPB. Pelo contrário, irá desviar as atenções dos mais jovens, que já quase não conhecem nem são estimulados a conhecer o melhor da nossa música.

*Alexandre Figueiredo é jornalista e editor dos blogs O Kylocyclo e Mingau de Aço. Colabora eventualmente com o Cacarejada Virtual escrevendo artigos sobre diversos temas.
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