terça-feira, 29 de julho de 2014

Um domingo na "Feira do Rolo", em Juiz de Fora


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> Com imagens da cinegrafista e fotógrafa carioca Isa Carla Ramalho, circulamos no último fim de semana (apesar do frio intenso e da constante ameaça de chuva) pela "Feira do Rolo"  — realizada tradicionalmente aos domingos, às margens do rio Paraibuna, na Avenida Brasil, no centro de Juiz de Fora. 

Produtos eletrônicos recentes misturados com outros de mil novecentos da idade da pedra lascada, carcaças e peças de computadores, CDs e DVDs piratas, vinis, fitas K-7, pneus recauchutados de automóveis, motos e bicicletas, animais diversos, imagens de santos, penicos e vasos sanitários usados, colchões, "trabisseros", roupas, camas, utensílios domésticos e o carayo a quatro são encontrados espalhados pelo chão ou em barracas improvisadas. Parece que quanto mais sujo e enferrujado o objeto, melhor.

No meio da multidão e da paisagem cinzenta, um busão das antigas desperta curiosidade. Trata-se de um brechó sobre quatro rodas. Apesar do aspecto retrô, o veículo é visitado até por "madames emergentes" à procura de roupas e acessórios de grife que o dono do comércio consegue trazer diretamente dos Estados Unidos e da Europa.

Enquanto gravávamos uma matéria para o blog dentro do buzão, uma balzaquiana do cabelo pintado de amarelo tagarelou: — "Vim aqui vê se compro algumas coisas para a Maria, minha empregada." Me engana que eu gosto, matutei. Alguns produtos comercializados na Feira do Rolo são de procedência duvidosa.

De vez em quando policiais militares circulam na área com o objetivo de intimidar os foras da lei e apreender mercadorias contrabandeadas ou roubadas. Um sujeito com cara de pouco honesto tentou passar uma nota de 3 "real" no boteco "Fé em Deus", após beber meia garrafa de cachaça. O dono do estabelecimento botou a boca no trombone: — pega ladrão! Elementos suspeitos costumam ser revistados e, em última instância, transportados até a delegacia onde passam por uma triagem.

Prostitutas curvilíneas desfilam à procura de "clientes". Um gringo ofereceu 30 dólares para ficar por alguns instantes com a mulata de anca avantajada que caminhava brejeira. — "Yes, nagócio fachado... adorro perriquitas e a mim non me imporratar se é brooonca ou preeeta", disse sorridente.

Tem até pais de santo que "arrumam" emprego para desempregados, "curam viadagem", etc, e ciganas videntes que ajudam o cabra "acertar" na Mega Sena — além de "trazer" a pessoa amada em 24 horas. O volume ensurdecedor e indigesto do lixo sonoro toma conta do ambiente.

Do outro lado da feira, porém, — onde são comercializados frutas, verduras e hortifrutigranjeiros, um serviço de alto-falante - (desses pendurados no poste) apresenta respeitável trilha sonora regada a tangos, boleros, bossa nova e jovem guarda. A sonorização é comandada por um veterano radialista aposentado que apresenta anúncios comerciais, recados e utilidade pública.

Os ceguinhos também são presença garantida na feira. Tocam sanfona, acordeon e cantam forró de raiz. De bobos, eles nada tem. Deixam o chapéu estrategicamente armado à espera que os passantes contribuam com "nicas" e "pratas", como são chamadas as moedas no interior de Minas.

Por volta das duas da tarde, já no final da feira e com os termômetros marcando doze graus, consegui comprar uma tábua de passar roupa que eu carecia. Afinal, passar as vestes em cima da cama é phoda. Dá uma dor na cacunda do caralho. — "É trenta mas eu dêxo por dez real, meu jovem", disse-me o vendedor aparentando visível sinal de embriaguez.