domingo, 7 de setembro de 2014

Cenas urbanas


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> Apesar dos incontáveis atrativos culturais, urbanísticos, comerciais e de sua incomparável beleza natural, o Rio de Janeiro continua um autêntico caos.

Violência a cada meio palmo andado (assaltos, balas perdidas, brigas de gangues, traficantes que derrubam até helicóptero da polícia com fuzis e metralhadoras de guerra), trânsito infernal, milhares de mendigos ameaçando com cara feia e estiletes quem não doar-lhes pelo menos um real, motoristas de táxi desonestos e fumando maconha ou cheirando cocaína (entre eles há exceções, sem dúvida), prostitutas e travestis agindo em plena luz do dia  até mesmo em porta de delegacias ou (pasmem!) debaixo das barbas do Comando Militar do Leste (Exército) ao lado da Central do Brasil e em qualquer outro local da Cidade Maravilhosa que o transeunte resolva dar o ar da graça. 

Aliás, isso é fato recorrente desde mil novecentos e o caraio a quatro nesta internacionalmente famosa cidade que já foi capital do Brasil e ainda continua a influenciar costumes e modismos em todo o país. Nenhum governante, porém, conseguiu acabar com pelo menos metade das mazelas que atormentam a população carioca.

Há poucos dias fui ao Rio num desses modernos ônibus que fazem a linha Juiz de Fora/ Galeão/ Rodoviária Novo Rio. Após o desembarque peguei outro busão, desta vez urbano, até Copacabana, onde eu tinha um compromisso particular marcado para o início da tarde de sexta-feira com aspecto invernoso  cuja temperatura (acreditem!) estava na marca dos 19 graus. Na primeira parada, entra um cabra vendedor de amendoim dourado no coletivo.

Com sotaque de malandro carioca, o tom do discurso é dos mais manjados:  Boa tarde minha gente, eu bem que poderia tá aqui matano, robano, estrupano. No entanto, tô trabalhano. De boa, quem pudé me ajuda eu vô pedi pra Deus abençoá vocêis. Um pacotim desse amendoim é dois real e três pacote eu faço por cinco real.

Ato contínuo, o sujeito foi deixando unidades do produto nas mãos de cada eventual freguês, enquanto percorria num piscar de olhos o interior do veículo.

Motorista e cobrador, obviamente, recebem o petisco como cortesia. Afinal, mesmo sendo proibido esse tipo de comércio no transporte público, costumam fazer vistas grossas e franquear o acesso aos ambulantes.

O ônibus seguia com uns trinta passageiros a bordo e desses, apenas três, incluindo eu, compraram o tal amendoim. A desgraceira, no entanto, ainda estava por vir.

Não satisfeito diante do que classificou de "pouco caso dos pessoal", o rapaz desceu na Praça Mauá, sem antes fazer uma advertência. "Vocêis num ajuda quem precisa e depois quando é assaltados ainda vai reclamar e chamar os homi."
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RECOMENDAMOS

O destaque musical da semana fica por conta do excelente cantor, compositor, violonista e arranjador Daniel Taubkin. O artista — merecidamente incluído no Dicionário Cravo Albin da MPB — é irmão de Benjamim Taubkin (pianista e compositor) e Myriam Taubkin (produtora cultural), tio de Luísa Maita (cantora e compositora). Daniel iniciou sua carreira profissional em meados da década de 1980, em shows ao lado de Dori Caymmi e participação de Danilo Caymmi e Guilherme Vergueiro. Conosco em constantes trocas de conteúdo no Facebook, Taubkin é autor, entre outras belas melodias da insuspeitável balada romântica/dançante “Viver por viver”. É pra tocar nas melhores seleções musicais das FMs adulto contemporâneas do país.

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