sábado, 11 de outubro de 2014

A privatização da cultura popular


Por Alexandre Figueiredo*
alexfig.floripa@gmail.com
facebook/alexandre


>> Poucos se deram conta, mas privatizaram a cultura popular. Subordinaram-na nas regras do chamado "livre mercado", que de livre mesmo só tem o de alguns endinheirados alimentarem suas gordas finanças de maneira abusiva e permanente, o que faz com que as expressões, ídolos e personalidades apoiadas pelo rótulo de "popular" expressem suas futilidades, sua mediocridade e seu vazio de valores edificantes e positivos para nossa sociedade. 

Não é só na música.Temos uma mídia sensacionalista na qual o pitoresco e grotesco comandam a "informação", de tal forma que os adeptos dessa mídia "divertida" não sabem dizer se essa mídia é "investigativa" ou "humorística".

Temos sub-celebridades que surgem de "riélites" e alimentam suas famas com curtições sem sentido e factoides com menos sentido ainda. Temos mulheres sem qualquer serventia, tanto que suas "belezas" se expressam através de quatro bolsas de silicones  duas nos glúteos, outras duas nos seios , e que se expressam com um pseudo-sensualidade tão exibicionista que torna-se sem graça e desprovida de sedução. 

Na música, nota-se não apenas o ridículo de nomes extremamente grotescos  que se tornam o paradigma do que é cafona em cada momento, como também em outros que, mesmo pretensamente "sofisticados"  como vários astros do "pagode romântico" e do "sertanejo" vindos sobretudo desde 1990 , não deixam de expressar um caráter piegas e patético, por mais que tentem tardiamente uma proximidade um tanto tendenciosa com a MPB autêntica. 

E por que vivemos a supremacia de sub-celebridades e pseudo-artistas, entre outras sub-personalidades que aparecem toda semana na mídia e nunca saem de cartaz, apesar de simbolizarem o que há de mais supérfluo e descartável no âmbito da cultura brasileira?

É aí que entram os empresários da mídia e do entretenimento que sustentam todo esse circo da mediocridade, do grotesco e do piegas que tentam associar forçadamente à cultura das classes populares.

ANTIGAMENTE NÃO ERA ASSIM 

Em outros tempos, pelo menos até cerca de 50 anos atrás, a coisa não era assim. A cultura popular sempre foi sinônimo de boa qualidade, e em mais de 450 anos  isso se não contarmos o que foi produzido pelos índios bem antes de 1500, o que daria numa admirável pré-história de nosso Brasil —, as classes populares contribuíram com produtos, linguagens, expressões artísticas e até um combativo ativismo político que permitiram a emancipação do Brasil como um país de identidade sócio-cultural e politica própria. E que o mercado popularesco, respaldado por uma intelectualidade badalada mas irresponsável, quer destruir.

Até mais ou menos meados dos anos 60, cultura popular era marcada pela valorização de nossas raízes culturais, com a ótima receptividade de ritmos como o baião, o samba, as modinhas, os frevos e outros ritmos.

Mesmo o papel estereotipado das classes populares nas chanchadas  que eram acusadas pelos cineclubistas de copiarem as comédias de Hollywood — não era ofensivo à natureza das classes populares e até as vedetes do teatro rebolado eram mulheres mais dignas, sem vulgaridade e até muitíssimo interessantes.

Só um exemplo de como as vedetes tinham uma boa reputação e um grande mérito pode ser notado na tragédia que vitimou a atriz Zaquia Jorge, que, em 22 de abril de 1957, aos 33 anos e no auge da carreira  ela havia fundado até uma companhia de teatro , se afogou em uma praia da então pacata Barra da Tijuca. 

O fato comoveu a sociedade carioca de tal forma que o compositor Joel de Almeida compôs o melancólico samba "Madureira Chorou", em homenagem à atriz de várias peças e filmes e que se tornou uma das canções mais tocadas durante o carnaval de 1958. 

Quanto à música, tantos nomes brilharam naqueles anos que iam de 1935  época em que Mário de Andrade divulgava suas pesquisas folclóricas  a 1964, época dos debates, depois subitamente abortados, dos Centros Populares de Cultura da UNE , que atuaram na Era de Ouro do Rádio e nos apareceram nos primórdios da televisão (dos quais restam pouquíssimas imagens), como Jackson do Pandeiro, Cartola, Orlando Silva, Marinês e Seu Conjunto, Luiz Gonzaga, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Zé Dantas, Miltinho, Léo Canhoto & Robertinho, Teixeirinha, Cascatinha & Inhana e Stellinha Egg. 

As empregadas domésticas não estavam associadas ao gosto brega e grosseiro que os intelectuais "bacaninhas" de hoje tanto nos fazem acreditar. Em 1960, uma empregada doméstica era capaz de ouvir jazz, soul e rock dos anos 50, junto ao baião, samba e frevo, e não apreciava apenas fotonovelas, mas também obras literárias de considerável relevância, como as obras de Machado de Assis e Aluísio de Azevedo.

DITADURA MILITAR 

Foi a ditadura militar que fez as classes populares perderem seu próprio patrimônio cultural. O coronelismo radiofônico, usando a mesma lógica do neoliberalismo econômico dos ministros do governo Castello Branco, Roberto Campos (do Planejamento) e Otávio Gouveia de Bulhões (da Fazenda) de criar um desenvolvimento subordinado ao estrangeiro e baseado em matéria-prima obsoleta no Primeiro Mundo, desenhou-se a "cultura" brega-popularesca a partir de um desenvolvimento cultural subordinado ao hit-parade norte-americano com base em modismos (matérias-primas) ultrapassados. 

Com isso, vieram, na primeira geração brega, arremedos dos antigos seresteiros, indecisos em fazer ao mesmo tempo boleros e baladas country de maneira confusa e com uma vaga noção desses estilos, e faziam em 1964 (auge da Bossa Nova no Brasil e já foco das vanguardas psicodélicas nos EUA e Reino Unido) o que seus inspiradores haviam feito com muito mais talento dez anos antes.

O brega surgiu como a "cultura" daquele que é o último a saber, o último a absorver um modismo, de maneira apressada, confusa e tardia, criando desejos que não são seus, querendo que o interior do Brasil parecesse Texas ou Tennessee com alguns toques de México, o que fazia com que o desejo do Brasil parecer tex-mex (mistura de Texas e México) fosse algo mais obsessivo e caricato do que sonhavam os imigrantes de origem latina que viviam no sul dos EUA.

A primeira geração do brega foi de retardatários das serestas e dos boleros countryficados, e a segunda geração foi a de retardatários da Jovem Guarda. O brega durante um bom tempo resistiu à ideia de desenvolver uma brasilidade ou abraçar algum ritmo musical brasileiro ou mesmo criar uma identidade musical nova, ainda que adaptada de tendências "de fora".

O brega sempre foi fechado no seu próprio umbigo e nos referenciais colhidos por emissoras de rádio controladas por aliados do respectivo poder coronelista regional. O brega só começou a perseguir alguma brasilidade, e mesmo assim de forma caricatural e tendenciosa, a partir do "milagre brasileiro", apenas como forma de afirmação de uma suposta identidade nacional promovida pela ditadura militar.

Daí veio o "sambão-joia", que está para o sambalanço (inovadora fusão do samba com jazz, rock e soul) assim como os ídolos comportados do rock dos anos 50 (como Pat Boone, Paul Anka e Bobby Darin) estavam para o rock de Elvis Presley, Bill Haley e companhia. Daí não ser exagero dizer, por exemplo, que Benito di Paula é o "Paul Anka brasileiro", no sentido da musicalidade conservadora e razoável produtora de hits comerciais assobiáveis. 

Depois, ao sabor dos interesses turísticos dos "coronéis" do interior e de algumas capitais do Norte e Nordeste, outros ritmos "brasileiros" surgiam, sempre subordinados por alguma forma caricatural de ritmo estrangeiro, sem a natural fusão artística nem a preocupação com o desenvolvimento de identidades culturais.

Em vez disso, o que havia eram linhas de montagem musicais, que de um lado assimilavam o ritmo estrangeiro da moda e, de outro, deturpavam um ritmo regional através de clichês mais superficiais e repetitivos.

Fora da música, a pornografia começava a ampliar mercado, assim como o sensacionalismo jornalístico. Junto a isso, as redes de televisão passaram a reforçar uma visão caricatural das classes populares, criando um "padrão" em que a "qualidade de vida" do povo se baseia em pessoas banguelas e apatetadas, idosos embriagados, mulheres vivendo na prostituição e populares vivendo no comércio informal.

O "verdadeiro povo" que os intelectuais badalados tanto defendiam como "imagem progressista", mas que na verdade expressava seus piores preconceitos elitistas cinicamente definidos como "ruptura de preconceitos".

SUPREMACIA BREGA 

Nos anos 70, ainda se poderiam ouvir sambistas autênticos e a música caipira que não era forçada a fazer o papel do estereótipo "tex-mex made in Brazil".  Afinal, muitos daqueles artistas populares ainda estavam vivos e, em parte, ainda eram referenciais para o povo brasileiro.

E, fora da música, um exemplo a considerar era o fato de que muitas atrizes de pornochanchadas (obras cinematográficas sem pé nem cabeça que valiam pelas cenas eróticas) eram mulheres classudas e de admirável inteligência.

A supremacia brega só se deu para valer a partir de 1990, quando surgiram os efeitos mais evidentes para a farra de concessões politiqueiras do então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, nos anos 80.

Isso porque o clientelismo midiático dos dois "coronéis" se consolidou a partir da Era Collor, o que fez com que os poderes midiáticos constituídos regionalmente desenharam o que as chamadas classes dirigentes queriam que fosse a "cultura popular" no Brasil, reforçando e aumentando o cenário de breguice cultural que havia sido patrocinado pela ditadura militar e as elites civis associadas.

QUEM É O EMPRESARIADO BREGA? 

O empresariado do entretenimento brega-popularesco, musical ou não, é dividido entre os chefões da grande mídia e seus executivos dedicados ao entretenimento popularesco e os empresários de companhias promotoras de eventos ou agências de famosos.

São eles que recrutam de "boazudas" a conjuntos musicais, investindo e sustentando o sucesso de seus clientes e evitando a todo tempo seu desgaste, não medindo escrúpulos em produzir factoides ou guinadas tendenciosas.

Esses empresários do entretenimento, ligados à promoção de eventos e famosos, se equiparam a capatazes de latifundiários, no seu perfil ideológico. São muito rígidos nos seus métodos de controle de seus clientes e os únicos objetivos a serem alcançados são referentes ao lucro financeiro. 

Apesar disso, eles adotam um visual mais "modesto" e se autoproclamam "produtores culturais" apenas para dar uma imagem simpática, sob o pretexto de que investem no "popular" e de forma a conquistar também intelectuais e acadêmicos.

Eles investem nos seus produtos, sejam sub-celebridades, "boazudas" e artistas "populares"  há de tudo, de "pagode romântico" ao "pagodão" baiano, do "forró eletrônico" ao "funk", passando por duplas de "sertanejo universitário" , investindo todo dinheiro para mantê-los em cartaz. Aliados dos grandes empresários de mídia, eles estabelecem parcerias de divulgação dentro da mídia conservadora.

Muitas vezes, quando seus clientes atingem um público ao mesmo tempo maior e, em parte, de melhor poder aquisitivo, esses empresários "vendem" o passe de seus antigos "protegidos" para empresas de renome mais vinculadas ao poder midiático. 

É por isso que ídolos do "pagode romântico" e "sertanejo" mais veteranos passam, sob novos investidores, a moldar uma imagem pretensamente "sofisticada", fazendo o que se pode chamar de "MPB de mentira", que tenta imitar na aparência a MPB comercial vigente desde os anos 80 e dotada de aparato de pompa e luxo, mas cujo conteúdo continua sendo tão brega quanto antes.

Independente de falsas sofisticações ou de grotesco explícito, o fato comum é que esses empresários privatizaram a cultura popular, determinando o (mau) gosto do grande público e influenciando a grande mídia a não só promover o sucesso desses ídolos mas a perpetuá-lo de maneira indefinida, de modo que, com o menor sinal de decadência, uma boa soma de dinheiro fosse sacada, seja para realimentar um factoide ou uma aparição qualquer de uma sub-celebridade, seja para criar uma nota paga sobre uma apresentação de um ídolo musical que "arrastou a plateia" em dada cidade. 

Esses ídolos "populares" não produzem conhecimentos, não estabelecem valores edificantes, nada acrescentam para a cultura popular. Mesmo seu estrondoso sucesso é cheio de irregularidades e erros propositais. Mesmo quando tentam alguma "evolução", como no caso dos ídolos veteranos do "pagode romântico" e "sertanejo", não é de forma espontânea e sua qualidade é sofrível, com todo o aparato luxuoso e todo esforço em passar uma "boa imagem". 

O pior aspecto disso tudo é que teremos que aguentar esses ídolos enganando a população por pelo menos cinco décadas. O poderio empresarial no brega-popularesco é algo que deve ser analisado porque a cultura das classes populares está nas mãos de uma minoria que, em que pese a origem humilde de boa parte deles, se insere dentro de um contexto de coronelismo político, econômico e midiático.

E é gente disposta a promover uma imagem caricatural das classes populares e não tem o menor compromisso de promover uma cultura de verdade. Intelectuais "bacanas" farão de tudo para desmentirem isso, inventarão que a cultura popular está "tão boa quanto antes, só que diferente", e criaram e criarão mil teorias pós-modernas, se apropriando indevidamente de autores sérios para puxarem a brasa para as sardinhas intelectualoides.

Mas a verdade é que nossa cultura popular pede socorro, na medida em que as antigas expressões de nosso povo deram lugar a sub-expressões financiadas por uma minoria de empresários do entretenimento com o apoio do coronelismo político-midiático.

*Alexandre Figueiredo mora em Niterói (RJ). Jornalista e editor do blog Linhaça Atômicaé  um dos colaboradores deste espaço virtual. Lançou recentemente o livro Pelas Entranhas da Cultura Rock   e um passeio por outras áreas da cultura.
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