segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O carrinho do menino era de lata e madeira


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>>  Ao passar  por um bairro periférico da chuvosa e invernosa Juiz de Fora na manhã deste domingo (21) avistei um menino todo risonho a puxar um carrinho feito de lata de azeite  com pedaços de madeira e amarrado por dois fios plásticos. Com o zói marejado, lembrei-me da minha época de criança.

Naquele tempo era bem assim. No saco do Papai Noel, tudo muito simples, tudo natural. Os meninos ganhavam modestos carrinhos de plástico e sentiam-se felizes.

As meninas, por sua vez, recebiam de presente singelas bonecas e abriam largos sorrisos. Era um Natal mais humano. A gente acreditava que o simpático Papai Noel descia pela chaminé, tão logo o relógio marcasse meia-noite.

Mas era preciso ir dormir antes desse horário porque só assim o bom velhinho "traria os presentes", diziam nossos pais e avós. Algumas crianças mais gaiatas fingiam que pegavam no sono, mas ficavam escondidas atrás da porta ou debaixo da cama para dar um "flagrante" no velhinho de barbas brancas. Não faltavam crenças e muita diversão.

As famílias, naquela época muito unidas, se juntavam para troca de presentes e orações, um encontro fraterno. Nas indefectíveis vitrolas, as músicas que se ouviam eram exclusivamente alusivas ao Natal.

Tudo diferente desses tempos modernosos quando até mesmo em datas tão importantes — Ano Novo ou festejos juninos, por exemplo a trilha sonora prioriza os indigestos funks, axés, pagodes, "sertanejos universitários" e outros ritmos canastrões idênticos (tenham dó dos nossos sofridos tímpanos!).

Tão logo o dia seguinte raiava, a criançada já estava de porta em porta para mostrar os presentes recebidos e ver o que os amigos haviam ganhado naquela noite tão especial. Não havia roubos, assaltos ou qualquer tipo de violência.

O Natal não era apenas feliz por ser cheio de luzes piscando entre varandas e árvores, por pessoas gastarem o dinheiro que guardavam (ou não) o ano todo para a compra de roupas, presentes e bebidas.

O dia 25 de dezembro não era mais uma corrente circulando pelo cada vez mais chato e ignóbil Feice Buque, como acontece atualmente. Era um momento único, de reflexão e não de curtição, com os mais velhos reunidos contado casos e orando com fé para que o novo tempo trouxesse saúde, paz e boas novas.

Tudo mudou, parece não haver mais espaço para as coisas simples e sinceras nem na noite de Natal. Até as crianças já não brincam mais como nos velhos tempos. Selfiosas, andam hiperconectadas e estressadas por conta das múltiplas tarefas do dia a dia (tipo gente adulta), uma espécie problemática.

Exceções podem até existir — como é o caso do menino com seu carrinho de lata em um bairro pobre de Juiz de Fora — mas vão ficando cada vez tão distante quanto os amores de agora que não duram duas invernadas. 
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UM ASTRO QUE SE VAI

Enquanto terminava de redigir a postagem acima, um amigo radialista de longas datas morando atualmente na ensolarada Fortaleza, a capital cearense, me avisava via WhatsApp sobre a morte do cantor britânico Joe Cocker.

Numa época em que os grandes compositores e intérpretes são cada vez mais raros, o artista — vítima de um câncer de garganta, aos 70 anos — parte deixando seu nome gravado na história da música internacional.

Com sua voz grave e rouca, criou versões memoráveis de grandes clássicos melódicos nas décadas de 60/70/80. Versátil, cantava como poucos diversos ritmos a exemplo do blues, rock, pop e romântico.

O cantor veio ao Brasil por três vezes. Se apresentou em shows que emocionaram o público em Belo Horizonte, Rio, São Paulo e Porto Alegre. Em abril de 2012, no Chevrolet Hall, Cocker realizou um dos mais envolventes espetáculos na história dos artistas internacionais que já passaram pela capital mineira.

Uma de suas mais conhecidas canções é a versão para With a Little Help from my friends, dos Beatles  além de Unchain my heart, gravada pela primeira vez pelo impagável Ray Charles. Relembre:

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DESCANSAR É PRECISO

Este aprendiz de escrevinhador que vos cacareja se permite passar uns dias fora do blog. Estaremos de volta no início da segunda quinzena de 2015 ou a qualquer momento numa "edição extraordinária", como diriam os speakers do finado  rádio AM.

Tenha, prezado transeunte que circula night and day por este minifúndio cibernético (propriedade rústica online de reduzida dimensão), um Natal com muita paz, saúde e amor. Que o Ano Novo renove nossas esperanças, concretize nossos objetivos, venha repleto de boas notícias e sonoridades expressivas.


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