domingo, 18 de janeiro de 2015

Nunca fui, nem pretendo ser Charlie


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> Jogando um facho de luz no desenrolar dos recentes acontecimentos na França — muito embora nada justifique o recente massacre em Paris — percebe-se claramente que os desenhos do satírico periódico Charlie Hebdo, sempre anabolizavam a islamofobia no país e desrespeitavam os direitos de liberdade ao credo religioso.

Em uma das recentes charges, o profeta Maomé foi colocado de quatro num ato sexual com Jesus Cristo e no fiofó do segundo enfiava-se o símbolo maçom, numa sátira pesada e inaceitável  da Santíssima Trindade.

Além de arrumar encrenca com os extremistas islâmicos, os cartunistas de Charlie Hebdo vinham atacando de maneira radical figuras públicas, a exemplo da ministra da Justiça francesa, Christiane Taubira, retratada por eles numa capa da edição como “Macaca”. Confesso que não apetece-me esse tipo de “liberdade de expressão”.

A França, considerada um dos berços da civilização ocidental, não é mais um bom exemplo a ser seguido. Durante o século XIX e início do século XX, porém, o país figurava como forte império que incluía vasto território da América do Norte, África Central e Ocidental, Sudeste Asiático e muitas ilhas do Pacífico.

O crescente aumento da extrema-direita francesa é um dos maiores cancros desses últimos anos no país. O presidente François Hollande, do Partido Socialista, no entanto com fortes tendências neoliberais, tem se tornado cada vez mais impopular.

Uma de suas mais drásticas medidas foi aumentar os impostos dos menos favorecidos, o que provocou uma onda de protestos e greves por toda a nação.

Fato, aliás, praticamente ignorado pela grande mídia e sequer colocado em destaque na capa da Charlie Hebdo (por aquelas bandas também existem imprensa 'marrom', 'chapa branca' e até mesmo o indigesto jabá.) Apesar disso, a comoção geral diante do massacre, principalmente dos jornalistas, foi inevitável.

Para complicar ainda mais a situação, Hollande aliou-se aos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico afastando qualquer possibilidade imediata de diálogo. Dez por cento da população francesa constitui-se de muçulmanos. O número pode parecer pequeno, mas o suficiente para gerar conflitos quando menos se espera. Uma verdadeira bomba de efeito retardado.

BANDA PODRE

Paris tem se revelado como um dos maiores exemplos da decadência francesa. Há muita sujeira nas ruas, mendicância, violência, assaltos, batedores de carteira, camelôs tentando vender até mesmo a própria dentadura, prostituição, tráfico de drogas, taxistas que tentam cobrar a corrida em dobro quando percebem que o passageiro não é de lá, metrô imundo (o modernoso e sempre futurista trem-bala é exceção), sanitários públicos catinguentos, desemprego e o carayo elevado ao quadrado.

No final de 2013, durante permanência de trinta dias da capital francesa fiquei praticamente sem meus pertences, enquanto contemplava os arredores da imponente e histórica Catedral de Notre-Dame.

Um cabra nativo, bem vestido e esperto que nem os gatos noir a circular pelas noites parisienses, meteu as mãos nas minhas algibeiras e ainda ameaçou-me de punhos cerrados: — Transmettre tout ou faire une merde! Como mal entendo o português, tentei  entender o que o sujeito disse e pareceu-me algo do tipo: — Passe tudo, ou faço uma merda!

E já que turista phodido nunca tem posses que justifiquem a presença de um fora da lei, encarei o distinto e arrisquei-me: — Voler pauvres, est la mendicité pour deux, ton putain tellement. Cool traîner là-bas, vous venez juste au-dessus de moi? Aller voler l'carayo, aux Zhè Chatté! 

TRADUÇÃO: — Roubar de pobre é pedir esmola pra dois, porra-louca. Com tanto bacana endinheirado por aí, cê vem logo pra cima de mim? Vá assaltar o carayo, sêo Zé Boschetta!

Como num passe de mágica, tamanha a rapidez do larápio primeiro-mundista, fiquei sem meus documentos originais de imprensa, passaporte, celuloso, pendrive com imagens feitas na cidade e mais algumas migalhas em dinheiro que havia juntado com muito sacrifício em Brezyl e trocado por Euros durante minha estadia na meca da Belle Époque.

Somente meia hora após ser roubado é que consegui avistar uma dupla de policiais a pedalar pelas margens do Rio Sena. Denunciei o fato e mesmo assim eles fingiram não me entender. Me encararam de forma ameaçadora, porém, quando eu disse: — aura dans le cul, au chômag!

Enganam-se os desavisados de plantão sobre o atual momento da França de outrora, apesar de  a nação ostentar um IDH "muito elevado" — segundo a maior parte das informações disponíveis, inclusive e principalmente na internet.

Afinal, é o Primeiro Mundo. Isso significa que fatos relevantes ou não que aconteçam por lá  (até um peido que algum bacana resolva soltar diante da Torre Eiffel ou ao lado do Arco do Triunfo) costumam ganhar amplo e irrestrito espaço na imprensa internacional. Menos para mostrar as mazelas políticas, econômicas e sociais.

EFEITO MIDIÁTICO

Por outro lado, tem muita gente, tanto nas ruas quanto no mundo virtual, reverberando a frase "Je Suis Charlie" (Eu sou Charlie), sem ao menos ter noção do que isso representa. Simplesmente porque a mídia tem falado exaustivamente sobre o lamentável episódio ocorrido na redação do Charlie Hebdo.

No calçadão da Rua Halfeld, no centro da calorenta e abafada Juiz de Fora, camelôs já lucram com a venda de camisetas, cuja inscrição é a "palavra de ordem" do momento.

"Num intendo direito dessas coisa, sêo moço. Comprei duas brusa dessa pru causa de conta acho bunito o jeito dos franceis falá", ouviu uma senhora de aspecto simplório dizer em voz alta.

Enquanto isso, uma série de ataques cometidos pela organização Boko Haram (grupo terrorista islâmico) nas últimas duas semanas deixou milhares de mortos nos entornos da cidade de Baga, no noroeste da Nigéria, na África.

O motivo? É que os radicais algozes acreditam que a "educação ocidental é um grande pecado". Raramente percebo espaços nos meios de comunicação a destacar o extermínio ou alguém comover-se diante do fato.

Nem mesmo os líderes mundiais, que no último domingo se abraçaram em solidariedade às vítimas da capital francesa, se pronunciaram acerca dessas duas mil mortes na Nigéria. 

Até mesmo o presidente do país, Goodluck Jonathan, que na ocasião estava na festa de casamento da filha dele — cujos convidados receberam de presente iPhones personalizados com o nome dos noivos e recheados de ouro 24 quilates — ficou de bico calado. Triste realidade num mundo tão desigual.
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