domingo, 22 de fevereiro de 2015

Livro conta histórias exclusivas da música brasileira



Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> O jornalista carioca Elias Nogueira anuncia (ainda sem data definida), o lançamento da segunda edição do livro Conversando com Elias — entrevistas Históricas com Personalidades do Meio Musical (Editora AMCGuedes, 232 páginas).

São várias entrevistas com expressivos nomes do cenário musical brasileiro."Não poderia deixar que esse trabalho se perdesse. Segui, então, o que os amigos disseram e optei por transformar toda essa conversa em livro", revela.

Entre os destaques da obra, o leitor poderá conferir uma das últimas entrevistas com o músico Zé Rodrix (1947-2009) e o envolvente bate-papo com os Titãs, pouco antes da morte do guitarrista Marcelo Fromer, em 2001.

Outros importantes nomes, a exemplo de Marcelo Nova (Camisa de Vênus), Jards Macalé, Armandinho (A Cor do Som), Martinho da Vila, Marcelo D2 e Ney Matogrosso  ilustram as páginas. Dinho Leme, baterista dos Mutantes, resolveu falar com o jornalista após vários anos sem conceder qualquer depoimento e coincidindo com a volta do lendário grupo paulista, em 2005.

Um dos trechos mais emocionantes do livro é a conversa com Marcelo Yuka. O músico, que ficou paraplégico após sofrer tentativa de homicídio, já seguia carreira solo após sua saída do Rappa.

“Não falamos só de música. Falamos do Rio, da violência. O papo foi na casa dele, na Tijuca. Ele estava muito abalado e muito decepcionado com tudo o que havia acontecido, até chorou durante a conversa. Eu o considero um poeta do rock, tão importante quanto Cazuza e Renato Russo”, disse Elias Nogueira ao Jornal O Dia.

Segundo ele, todas as entrevistas são especiais. "Mas tem uma que é muito especial. Quando publiquei a entrevista com Bezerra da Silva foi muito bom. A edição que saiu vendeu muito, rendeu bastante. Foi tão comentada que o Bezerra me telefonou emocionado agradecendo." 

A “orelha” da publicação é incensada por ninguém menos que o poeta, escritor e compositor Euclides Amaral. “Esse livro vem coroar um trabalho de tantos anos e as entrevistas nos revelam um escritor atento a seu tempo, conseguindo dos entrevistados suas respostas mais recônditas, aquelas que dificilmente um repórter obtém, a não ser que seja muito elegante nesta hora, assim como o Elias Nogueira”, acentuou — para em seguida filosofar: “Elias não consome álcool, mas sempre enchi dois copos e bebo por ele também, afinal, somos parceiros e faço esse esforço pelo amigo.”

O prefácio da obra, por sua vez, ficou por conta de Silvio Essinger, colunista de O Globo. “Elias é um apaixonado pela música e a escrita é o seu passaporte para o mundo dos criadores, aquele no qual nós, os infectados, sempre sonhamos em viver”, disse entre outras coisas no elegante texto sobre o autor.

Espontâneo, divertido e amistoso Nogueira é também radialista, ator e crítico musical (atuou no Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Jornal do Commércio, Gazeta Mercantil Tribuna da Imprensa — entre outros importantes jornais do país)

Seu nome figura, inclusive, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — o mais respeitado website do gênero. Lamenta, no entanto, nunca ter trocado ideia com um dos Beatles. Mas garante ter feito questão de dedicar seu livro a John, Paul, George e Ringo "Eles foram minha entrada na música, me fizeram ser jornalista. Se não fossem os Beatles, eu seria professor de História”, arrisca.

Via chat, Elias (flamenguista dos mais 'apetrechados' — não se sente muito bem quando o 'Mais Querido' deixa de ganhar) conversou com a produção do blog Cacarejada Virtual. Confira a entrevista.

Qual a expectativa para o lançamento desta segunda publicação? 
A melhor possível. Nesta edição do “Conversando com Elias” atualizada  coloquei mais três entrevistas que não entraram na primeira fase: Marisa Monte, Sérgio Vid e Sepultura, além de fotos do primeiro lançamento que completou um ano dia 17 de Fevereiro. O livro foi lançado pelo aniversário dos 25 anos de minha carreira dentro do circuito musical. A segunda edição é uma tiragem especial. A Escrita Fina, empresa que fortalece a cultura, loja onde vende material escolar e produtos personalizados de artistas famosos, comprou os direitos, dessa publicação. O lançamento será agendado ainda nesse semestre. 

A relevância dos artistas entrevistados já faz o diferencial do trabalho. O que o leitor pode esperar mais nas páginas da publicação?
Reportagens com abordagens diferentes, não são entrevistas convencionais. Tenho o hábito de colocar na íntegra tudo que o entrevistado fala; antes de entrevistá-los aviso: se não quer que saia algo que não seja do seu agrado, avise que desligo o gravador. Gosto de colocar o modo de cada um em sua fala. Não gosto de substituir uma palavra popular por um sinônimo, gosto das gírias. Acho que assim fica mais verdadeiro.

O livro reúne quase três dezenas de entrevistas com grandes nomes da música brasileira. Alguma em especial? 
Agora são 27 entrevistas. Todas são especiais, mas tenho uma “muito” especial. Quando publiquei a entrevista com Bezerra da Silva foi muito bom. A edição que saiu vendeu muito, rendeu bastante. Foi tão comentada que o Bezerra me telefonou agradecendo e com a voz embargada ao telefone dizendo assim: — Moleque, você quase me mata de tanta emoção. Ninguém até hoje fez uma entrevista comigo neste nível como você fez. Obrigado de coração! Lembro-me perfeitamente desse dia. Acho que foi a última entrevista que o Bezerra deu antes de falecer.

Houve espaço para incluir outros importantes personagens da MPB, a exemplo de representantes do indelével Clube da Esquina ou da boa música que um dia foi feita por expressivos compositores nordestinos? 
Os artistas mineiros são mais  difíceis. Até porque, quando estão no Rio, logo voltam para sua terra natal. Não foi por gosto pessoal, foi por falta de oportunidade. Mas veja bem: têm Victor Biglione que é guitarrista versátil, toca de Jimi Hendrix, passando pelo jazz, MPB e Bossa Nova, um elemento muito importante na música. Atualmente é componente do Som Imaginário onde também figuram Robertinho Silva, Wagner Tiso, Luis Alves, Tavito e Nivaldo Ornelas. Fiquei feliz em entrevistar os nordestinos Raimundo Fagner, Zeca Baleiro, Zé Ramalho, Marcelo Nova e Armandinho. Acho que o Nordeste está bem representado.

Seria o segundo livro de outros da mesma linhagem futuramente lançados por você?  
Sim. Estou trabalhando um material inédito para este ano. Não posso adiantar nada, mas tenho certeza que vai dar muito o que falar.

E por que não a eventualidade de escrever biografias; receio de esbarrar na polêmica questão dos direitos autorais?  
Já pensei nisso. Mas o assunto ficou muito popular. Gosto de fazer coisas que ninguém tenha pensado. Livro de entrevistas não havia um parecido há mais de 15 anos. Como no Brasil as coisas se perdem com o tempo, fiz este livro para ficar marcado. Veja bem: entrevistas bacanas, reveladoras, especiais que se eu não fizesse no livro, ficariam no esquecimento, se perderiam. O Brasil tem fama de país sem memória, eu tenho consciência que não colaboro para ser assim. Antes de ser jornalista, fiz História na Universidade Santa Úrsula, deve ser por isso também.

Com trânsito livre no meio artístico e vasta experiência na área jornalística cultural, como você analisa a lastimável situação de momento da música brasileira imposta pelos meios de comunicação?
A música é como tudo na vida, sempre muda; se atualiza para melhor ou pior, depende do gosto pessoal. Hoje o mercado é voltado para músicas comerciais, para faturar financeiramente, não pensam na qualidade. O povo tem culpa, não se .preocupa com qualidade, se são descartáveis ou não, apenas curte aquele momento e daqui uns dias aquela mesma música desaparece como fumaça. No meio desse turbilhão de fatos surgiram coisas boas nos anos 1980, 1990 e até 2000. 

A juventude dos anos 60, 70 e 80 era mais exigente do ponto de vista musical. Foi  justamente nesta época que surgiram os mais importantes compositores e cantores da música brasileira. Existe luz do fim do túnel diante da "diarreia" sonora que tomou conta das paradas de sucesso? 
Cada lugar tem seu tempo. Realmente as músicas dos anos citados foram marcantes, mas também tiveram produções de qualidade duvidosa. Nem sempre o que a mídia impõe é tudo que está acontecendo no momento. Se sair em campo procurando em lugares propícios encontrará coisas boas que não são divulgadas. Infelizmente, o povão é influenciado pela grande mídia. As pessoas falam mal da grande emissora de Televisão, mas sabem tudo que é transmitido por ela. Falam, mas dão audiência. No passado fui muito radical, todo jovem basicamente é assim. A música pra mim era sinônimo de rock. Depois aprendi com os mais experientes, que essa arte é muito grande para eu ficar preso a um segmento somente. Passei a escutar coisas que jamais escutaria com 18 anos de idade. A música brasileira é muito rica e extensa, o Brasil é um país onde a mistura de raças é sua principal raiz, por isso a música brasileira é diversificada. Em todos os segmentos existem coisas boas e ruins, você tem que saber diferenciar. 

As novas gerações, infelizmente não sabem o que é música de verdade. Questionada se já tinha ouvido falar sobre Paulinho Tapajós, uma estudante de jornalismo da Universidade Federal de Juiz de Fora respondeu: "Esse já... é um índio, né?"
O jovem de hoje em dia recebe muita informação pelo simples fato da tecnologia ter evoluído em proporção que não temos nem como controlar. Talvez essa jovem que foi entrevistada não tenha, realmente, conhecimento aprimorado sobre a música, compositores, mas nem todos são assim. Conheço e lido com muitos jovens todos os dias. A música evoluiu e tudo muda. O que é bom permanece o que não é, cai no esquecimento.

Perguntei recentemente ao produtor, ator e diretor de shows Miele, no Teatro Rival, no Rio, quando o Brasil voltaria a ouvir música de melhor qualidade. Sem mais delongas, ele disse "Só quando a Rede Globo deixar". Parece que o distinto tem razão, não é mesmo?
Discordo. Ninguém é obrigado assistir a TV Globo. Ainda mais hoje em dia que têm vários canais de TV. Quem sintoniza a TV Globo na televisão de cada família? Sou Eu? A Polícia? È o próprio dono da casa. Ninguém é obrigado a nada.

Fale-nos um pouco mais sobre o lançamento do livro Conversando com Elias — Entrevistas Históricas com Personalidades do Meio Musical.
O lançamento da segunda edição ainda terá uma data marcada, muito em breve. A Escrita Fina, loja no bairro carioca Méier, onde todo material escolar é personalizado com figuras marcantes da música mundial, gostou do livro e está fazendo, conforme eu disse anteriormente, uma edição luxuosa, com mais três entrevistas que não saíram na primeira edição: Marisa Monte, Sérgio Vid e a banda Sepultura. Tenho certeza que o admirador da música e da sua história vai gostar de saber muita coisa dos bastidores, assuntos que não são revelados na mídia.
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Na sequência das imagens que ilustra a matéria, no sentido decrescente, Elias Nogueira com Guto Goffi, do Barão Vermelho; Erasmo Carlos; Armadinho; Zeca Baleiro e, a última, o próprio jornalista. 
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Colaborou para a edição da entrevista  — Jota Lacerda (jornalista/ radialista), direto de Fortaleza (CE)  
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