sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sou de outros carnavais


Por Marcos Niemeyer


>> Toda vez que ouço falar em Carnaval me lembro com uma certa ponta de nostalgia dos bons tempos da folia de momo. Nascido em Belo Horizonte e criado até o início da adolescência em Governador Valadares, no interior de Minas, ainda tenho na lembrança momentos inesquecíveis do evento de outrora. 

Na calorenta, abafada e "americanizada" cidade do Leste mineiro (se bem que naquela época as estações eram mais definidas e de vez em quando fazia até "frio" por essas bandas) a festa de momo encantava nativos e troianos atraindo, inclusive, forasteiros de diferentes partes do país.

Além dos então tradicionais carros alegóricos acompanhados pela multidão a desfilar pelas largas e arborizadas ruas do município, havia bailes carnavalescos nos clubes com as indefectíveis marchinhas, palhaços, confete, serpentina, pierrôs, colombinas, blocos, cordões, ingênuas brincadeiras e até os psicodélicos frascos de lança perfume (produto que era livre feito um pássaro quando escapole da gaiola).

Violência não passava de  uma palavra desconhecida nesta plana city, que vista das nuvens tem o formato de guitarra. O máximo que havia eram pequenas brigas isoladas em um o outro ponto da cidade e logo apartadas por amigos ou, em casos de maior gravidade, pela própria polícia que transportava eventuais valentões para acalmar os ânimos atrás das grades.

Até mesmo as putas daqueles já longínquos carnavais costumam impor respeito. Dulce e Rosinha eram donas das duas mais badaladas boates da finada Zona Boêmia de Valadares. Elas desfilavam em seus próprios carros alegóricos para delírio da plateia. Arrancavam aplausos por onde passavam e mil suspiros dos marmanjos.

Eram, inclusive, motivo de entrevistas nas emissoras de rádio da cidade. Os repórteres das antigas (me lembro de um deles por nome de Moacyr Marques, que povo dizia ser X 9 dos 'homi') tremiam nas bases ao vê-las de pertinho. Os cabras se nutriam com fartas doses de caldo de mocotó (o 'Viagra' da época) num boteco catingando a urina do Mercado Municipal.

Também, pudera. Ambas tinham pernas, seios e bundas "in natura". Não sabiam o que era academia, corpo siliconado, cabelos pintados de amarelo-canário e outras inquetações que fazem a cabeça e a "perseguida" das fêmeas modernosas.

Mas ai do sujeito que se atrevinhasse desrespeitá-las. Tomava logo um duro corretivo  que poderia ser simplesmente verbal ou mesmo um catiripapo no chifre  conforme a proporção do "insulto" dirigido a elas.

Além de prestigiar o Carnaval valadarense, a população não deixava também de ligar o rádio nas emissoras do Rio de Janeiro para escutar as novidades sobre a festa momesca da Cidade Maravilhosa, já que até meados dos anos sessenta poucos podiam se dar ao luxo de ter TV em casa.

E como eram bonitas as melodias carnavalescas. A verve criativa dos bons compositores não deixava margem de dúvida em relação ao talento dos artistas cariocas do samba. Aliás, toda aquela magia chacoalhava-se pelos quatro cantos do Brasil num inesquecível momento de beleza entre os festejos populares.

A marcha-rancho Máscara Negra, composta em 1967 pelo sambista carioca, Zé Keti, entrou para a história como das mais marcantes de todos os carnavais.

“Tanto riso/ Oh quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/ No meio da multidão...” 



Governador Valadares (atualmente com cerca de 300 mil habitantes) não tem mais Carnaval desses de merecer bons comentários. De passagem por aqui neste fim de semana (tenho a sensação de estar dentro de um forno de microondas diante do calor inclemente da cidade) onde vim rever parentes, aderentes e amigos depois de um certo tempo, percebi que a população local contemporânea só tem olhos para o tal Carnaval baiano com seus ritmos medíocres, previsíveis, descartáveis, violentos e pornográficos.

Alguns gatos pingados tentam ressuscitar em bairros distintos da cidade uma réplica dos antigos carnavais. Tem gente que leva fé na proposta. A maioria dos nativos, porém, acha que não faz sentido.

"Aqui, bobo, dexêu falá procê, essas musca que os pessoal inventô num tá cum nada, não. Bão dimais da conta era os carnaval da nossa joventude. O trem ficô uma disgracera danada, só"  reclamou uma vizinha da minhã irmã Marylou, a Zezé.

Mas isso, como se sabe, não acontece só por aqui, onde o quase árido território lembra algumas partes da Bahia tamanho o gosto do povo pelas batucadas ensurdecedoras. Tornou-se algo endêmico. Hoje, até mesmo no Rio de Janeiro, o berço do samba, é praticamente impossível saber o nome de algum samba de enredo das tradicionais escolas.

Andam impondo a tal de "axé music", "funk carioca" e "sertanejo universitário" (pasmem!) até mesmo nos tradicionais redutos do Carnaval. Afinal, pergunto eu, o que o cu tem a ver com as calças?Recife, a ensolarada capital pernambucana, ainda é um marco de resistência nesse sentido com o seu impagável e contagiante frevo. Até quando, ninguém sabe.
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