sábado, 28 de março de 2015

Em crise financeira e perda de audiência, Guarani FM é assumida por vendilhões da fé

Por Marcos Niemeyer


>> A tradicional radiodifusão brasileira, que já não anda bem das pernas com a queda cada vez mais acentuada da audiência, acaba de sofrer outro duro golpe por conta da extinção da Guarani FM de Belo Horizonte.

A frequência está sendo assumida pela "Rede Gospel  Feliz FM", sediada em São Paulo e que tem no comando o controvertido fundador e presidente da comunidade cristã "Paz e Vida", pastor Juanribe Pagliarin, figura conhecida por suas pregações exaltadas nos cultos evangélicos.

Há mais de trinta anos no ar, a emissora de propriedade do grupo Diários Associados se pautava pelo estilo musical e jornalístico adulto contemporâneo com música civilizada (clássica, blues, MPB, pop e jazz), agenda cultura destacando os eventos de qualidade da capital mineira e jornalismo com informação relevante.

Nesses últimos tempos, dezenas de emissoras radiofônicas (algumas tradicionais) perderam sua identidade ao serem vendidas para denominações evangélicas que geralmente usam esses preciosos espaços para expandir ainda mais sua teia mercantilista.

Se as rádios sobreviveram com advento da televisão a partir da década de 1950, o mesmo não pode se dizer com o avanço colossal da internet.

É público e notório que as novas gerações  diferentemente das pessoas de outrora  não tem o hábito de ouvir rádio, na medida em que andam hiperconectadas dia e noite com os modernosos dispositivos tecnológicos. Exceções existem, mas nem podem ser consideradas na tentativa de provar o improvável.

Diante das AMs praticamente mortas (só falta a pá de cal em cima) houve uma expansão exagerada da FMs ultimamente, sobretudo na periferia dos grandes centros urbanos com a massificação de programas bregas popularescos e músicas de qualidade duvidosa.

Emissoras com a linha de programação da Guarani FM (normalmente só encontradas nas capitais  e cidades do interior mais importantes) entraram em queda livre não só em função da concorrência desleal dos prefixos de perfil casca grossa, mas sobretudo se levarmos em conta que a preferência musical do brasileiro médio e até de nível cultural mais elevado despencou muito diante da imbecilidade sonora imposta pela mídia a partir de meados  dos anos oitenta.

Esses dois fatores, aliados à má gestão e falta de bons patrocinadores que pudessem manter as FMs de boa qualidade no ar, são os principais responsáveis pelo fim da 96.5 e de tantas outras que já tiveram e ainda (lamentavelmente) vão ter o mesmo fim.

Aquelas que ainda tentam resistir sobrevivem aos trancos e barrancos com o recebimento de verbas oficiais (governo, prefeituras, estatais, políticos, etc), o que significa rasgar elogios neles a todo instante), não encontrando mais fôlego para caminhar com as próprias pernas.

Bem diferente das rádios de propriedade das seitas evangélicas — sem dúvida, existem entidades religiosas sérias — cujo público segmentado e obediente com as promessas mirabolantes de rápida prosperidade financeira e um lugar "garantido" no céu após a subida para o "andar de cima", paga o dízimo e faz rigorosamente suas doações que vão engordar ainda mais as contas bancárias dos vendilhões da fé.

São perdas irreparáveis para o relato da comunicação brasileira. Afinal, o rádio tem história de sobra para contar não merecendo que suas ondas heroicas sejam manchadas com objetivos contrários aos seus princípios.
. .