domingo, 19 de abril de 2015

O Show do Cláudio Amaral


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com


>> O Show do Cláudio Amaral, levado ao ar diariamente, de segunda a sábado, das quatro da tarde às sete da noite na década de 1980, entrou para a história da radiodifusão brasileira como uma das maiores audiências nos áureos tempos da Rádio Sociedade da Bahia/ Salvador, emissora pertencente na época ao empresário basco radicado no Brasil, Pedro Irujo, e na qual tive a honra de atuar no Departamento de Jornalismo como redator e apresentador.

Cláudio, (o primeiro à direita da imagem), nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, era um comunicador típico das grandes emissoras: organizado ao extremo, disciplinado em sua jornada de trabalho, bom entrevistador, sabia, como poucos, distribuir os quadros do programa sem jogar conversa fora. Criativo, foi ao Rio de Janeiro e contratou o grupo Os Golden Boys para gravar a música de abertura e as vinhetas do programa.

"Hey, Cláudio Amaral, Cláudio Amaral... a dona de casa sabe muito bem que ele é o amigo do seu coração...". O ritmo foi inspirado numa melodia da banda The Fevers, intitulada Hey! Banana, de 1983. "São as mais bonitas da rádio", gabava-se com razão. Clique no play para ouvir.

OBS: A qualidade do áudio não é das melhores, em função de o mesmo sido retirado a partir de uma fita de rolo das antigas que guardo no meu arquivo radiofônico. Vale ressaltar, porém, que já naquela época o som da Rádio Sociedade era um dos mais potentes do país. No segundo play, ouça as vinhetas de "O Show do Cláudio Amaral" que rodavam durante o programa:


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Como ninguém é perfeito, Amaral tinha também sua porção "negativa". Era um profissional de caráter explosivo, do tipo "não levo desaforo para casa". Muita gente, sobretudo alguns companheiros de trabalho, não gostava dele. Diziam aos quatro ventos que se tratava de um sujeito "pedante e autoritário", muito embora, reconhecessem sua extraordinária capacidade profissional.

QUEM SE ARRISCA A FALAR MAL DO REI?

Por apresentar um programa de grande audiência, Amaral recebia diariamente em seu horário a visita de inúmeros artistas populares. Certa ocasião, o cantor Jerry Adriani chegou de surpresa ao estúdio.

Diálogo estabelecido, Cláudio resolve fazer determinada observação negativa em relação a Roberto Carlos. Amigo do rei, Jerry não gostou do que acabara de ouvir e retrucou de dedo em riste: "Escuta aqui, ô Amaral; não posso permitir que falem mal de uma das pessoas que mais gosto. Roberto é inatacável." 

—  Mas eu não falei mal do Roberto, apenas disse que...

— Pois saiba você, e com pedidos de desculpa aos milhares de ouvintes desta emissora que tanto prezo, que a nossa entrevista está encerrada a partir deste momento. Amaral não teve tempo sequer de contra argumentar. Jerry saiu de fininho com cara de xerife do Velho Oeste.

O operador de áudio do horário, Hosanah SerraValle, tratou de cobrir o vácuo com uma providencial vinheta da emissora seguida de um bloco comercial em caráter de "urgência". Cinco minutos depois, Cláudio dava sequência ao programa como se nada de anormal tivesse ocorrido.

O CASO DA MALA 

Às vésperas do Natal de 86, a equipe da Rádio Sociedade resolveu realizar internamente a "Eleição do Mala do ano". O objetivo era esclarecer de uma vez por todas quem era o mais "traíra" e "indesejável" da turma.

Cláudio Amaral foi eleito por maioria esmagadora de votos. Teve mais de duzentas indicações. E, com direito a diploma e tudo mais. Recebeu como "troféu", uma mala dessas antigas com forro de papelão duro (que mineiros do interior e nordestinos do sertão usam quando vão a São Paulo), além de uma vistosa medalha e diploma de "honra ao mérito".

Puto da vida, foi reclamar com a direção da empresa. Deu com os burros n'água! Parece que Dom Pedro Irujo havia "votado" nele também. De minha parte, confesso que nunca tive nada contra o grande comunicador. Era meu amigo e entre nós havia respeito e admiração recíproca. Tanto é que não votei na mala dele, quer dizer, não ajudei a "elegê-lo" como os demais o fizeram.

OUVINTE ILUSTRE 

O Show Cláudio Amaral tinha várias atrações: "Parada do Povo", com os sucessos do momento (naquela época não havia axé, funk, breganejo ou algo de tão baixo nível sonoro como ocorre atualmente); "Parada Passada" (quando o comunicador resgatava boas músicas da Jovem Guarda, tangos, boleros e similares); "Telefone Premiado", com a participação do ouvinte (que ganhava alguma quantia em dinheiro diante de uma pergunta difícil); "Alô Taxi", que consistia na citação de uma placa de táxi aleatoriamente (caso o motorista do veículo estivesse ligado no programa era só passar na portaria da emissora e retirar o prêmio, geralmente, um disco de vinil) além de outras atrações e participação das equipes de esporte e jornalismo para garantir a audiência de quase 100 por cento.

Outro grande momento do programa ficava por conta da "Oração da Ave Maria", às seis da tarde, rezada de viva voz pelo "speaker". Uma de suas mais ilustres ouvintes era Dona Canô, mãe de Caetano, Bethânia e de Mabel Veloso (respeitável professora da rede estadual baiana, cordelista e poetisa de versos acima de qualquer suspeita).

A simpática e saudosa senhora acompanhava diariamente a atração através de um radinho Mitsubishi antigo (daqueles de capinha de couro e sintonia fina) em sua cidade natal, Santo Amaro, no Recôncavo Baiano

VITÓRIA DAS GALINHAS 

Como o tempo se encarrega de modificar tudo, Cláudio Amaral deixou a Rádio Sociedade da Bahia no inicio da década de 90. Tentou levar o consagrado programa para outras emissoras de Salvador. As incursões não surtiram o efeito esperado. O AM já começava a dar sinais de cansaço diante da proliferação das FMs popularescas.

Visionário, percebendo o início do fim da era dos grandes comunicadores radiofônicos, Amaral bateu em retirada voltando para o Rio Grande do Norte. A última notícia que tivemos dele, há mais de dez anos, é o que o mesmo havia se transformado num megaempresário do ramo granjeiro. O rádio perdeu, as galinhas ganharam. Dez a zero para as penosas.
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