sábado, 13 de junho de 2015

Morte do compositor Fernando Brant ocorre num momento de crise na música


Por Marcos Niemeyer


>> O Brasil acaba de perder o compositor mineiro Fernando Brant, um dos mais importantes letristas da MPB. Ele não resistiu a uma segunda cirurgia no fígado e morreu aos 68 anos de idade, na noite desta sexta-feira (12), em Belo Horizonte.

A morte de Brant ocorre num momento em que a música brasileira passa pela mais grave crise ao longo de sua história já que as novas gerações, manipuladas pelos indigestos meios de comunicação, não sabem o que é música de verdade e raramente surgem no cenário artístico cantores e compositores dignos de respeito.

Ao lado de Milton Nascimento, Fernando Brant gerou dezenas de insuspeitáveis melodias para a história da música brasileira sendo também um dos fundadores do lendário Clube da Esquina, relevante movimento musical surgido na década de 1960, na capital mineira. 

Também, escritor, Brant mantinha uma coluna semanal no diário O Estado de Minas sobre temas diversos. Transcrevo neste blog parte de um desses artigos elaborados pelo artista, cinco anos atrás, no qual ele aborda exatamente a questão da baixa qualidade musical que tomou conta das paradas de sucessos nas últimas décadas.

Todos tem direito de usufruir do tipo de música que lhes apeteça, desde que não imponha, pelo alto volume, seu gosto duvidoso aos demais seres humanos que vivem nas imediações. Gosto muito de acalantos que, como disse Drummond, fazem acordar os homens e adormecer crianças. Minhas meninas, eu as acalantei com muito Paulinho da Viola, Caymmi e seu boi da cara preta. Com suavidade e voz mansa. São cantares de colo e amor, de carinho e coração. Eu mesmo escrevi versos de ninar, especialmente para crianças ou para adultos que guardam a infância por toda a vida. Faço força para entender, por exemplo, os pais que levam para a sala de cirurgia, durante uma cesariana, um disco de axé, para que seu bebê nasça preparado para certas baianidades, ou para que a mãe se sinta "tranquila". Certamente, e isso ocorreu, eles não pensaram na possibilidade de interferir na concentração dos médicos. Não tiveram consciência de que parto é coisa séria e para que haja a alegria do primeiro choro, todo cuidado é pouco. Como é evidente que os jovens, que entopem seus carros de alto-falantes possantes e arrebentam os tímpanos e a paciência dos seus semelhantes com o bate-estaca que veneram, não param para pensar que não estão sós na rua nem no mundo. Música é escolha pessoal. Não quero obrigar ninguém a ouvir o que me satisfaz, mas pode ser desagradável aos outros. Da mesma forma, quero preservar, proteger, cuidar dos meus ouvidos, para que a música continue embalando minha existência." 

De quebra, Brant arrematou: P.S.: "Cada vez, mais dia, precisamos combater a dengue." 
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