segunda-feira, 1 de junho de 2015

O bom senso manda lembrança


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> No velório da mãe de uma amiga minha neste fim de semana em Madureira, na Zona Norte do Rio, tive o desprazer de presenciar várias pessoas grudadas ao smartphone enviando e recebendo mensagens pelas redes sociais e até fotografando a finada. Senti-me constrangido e envergonhado.

Fatos idênticos passaram a ser constantes depois da popularização de celulares que tiram fotos. Um dos casos mais constrangedores que se tem notícia e que causou intermináveis críticas na internet ocorreu durante o velório do então candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, em agosto de 2014, quando uma mulher desconhecida foi flagrada por jornalistas fazendo selfie sorridente ao lado do caixão.

A própria viúva do político, Renata Campos, deixou-se fotografar com amigos na frente da urna fúnebre, numa evidente demonstração de falta de respeito e evidente estratégia visando o futuro político de si mesma.

Nesse mesmo velório, outras pessoas foram vistas se fotografando ao lado caixão de Campos, outra prova inconteste de que o ser humano não tem mesmo limites para seus atos de imbecilidade.

Muito embora a prática seja antiga, já que existem álbuns de famílias inteiros com imagens de familiares mortos, o que se questiona é o modo como o fato ocorre nesses tempos modernosos.

Se no passado soava como natural, sem maiores pretensões que não fossem apenas deixar um relato da mórbida imagem para a posteridade, hoje em dia o lado vaidoso e narcisista da situação é que torna o flagrante fotográfico em algo dos mais condenáveis.

Sem falar que o momento extremo não é dos mais apropriados, seja lá para quem for, exibir longe do menor grau de desconfiômetro o vistoso celular.

Mas quando foi mesmo que o bom senso morreu? Em que momento a finitude da existência perdeu sua aura sacra para virar cenário para vaidades e agressões? 

Autora da tese de doutorado Aqui se Jaz, Aqui se Paga – O Mercado da Morte e do Morrer em Tempos de Imortalidade, que foi defendida pela UERJ e lançada em livro no final do ano passado pela editora Appris, a psicóloga Lana Veras tem uma convicção: 

"As novas formas de lidar com a morte não diferem tanto da maneira como lidamos com a vida. Em tempos de sociedade do espetáculo – onde tudo vira produto a ser exibido, compartilhado e vendido, numa competição acelerada para se sobressair a qualquer preço (seja no número de likes no Facebook ou em degraus na carreira ) –, nem a morte escapa às regras do mercado."

Até as "Carpideiras", figuras femininas cuja função em épocas distantes consistia em chorar durante o velório de pessoas abastadas financeiramente mostrando seus prantos sem nenhum sentimento, grau de parentesco ou amizade com o finado e sua família, mediante prévio pagamento em dinheiro, cairiam de costas.
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