domingo, 12 de julho de 2015

Cenário apocalíptico: enfraquecido, Rio Doce não consegue mais desaguar no Atlântico


Por Marcos Niemeyer


>> Uma tragédia ecológica sem precedentes na história do maior curso d’água do Sudeste brasileiro acaba de chegar ao ponto mais crítico, situação alertada por especialistas tempos atrás. Enfraquecidas, as águas do Rio Doce, que nascem em Minas Gerais e atravessam o estado até o Espírito Santo não deságuam mais no ponto tradicional do Oceano Atlântico.

Considerado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o décimo mais poluído do país, o manancial chegou a um estágio tão grave de seca e assoreamento que a foz — que se alargava por 380 metros de comprimento e tingia a costa capixaba de sedimentos cor de barro — recuou 60 metros continente adentro e se encontra agora como uma lagoa, represada por uma faixa de areia grossa de dois metros de altura, conforme matéria publicada neste fim de semana pelo site Uai, do jornal o Estado de Minas.

O bloqueio ocorreu há dois meses, em Regência, distrito do município capixaba de Linhares. O que acontece no estado vizinho é apenas o estágio final de um mapa de degradação que começa já na cabeceira e se estende não só pelos 850 quilômetros do leito, mas também pela maior parte da bacia de 86 mil quilômetros quadrados.

Segundo ambientalistas, biólogos e hidrólogos, além da destruição das matas ciliares, foram as agressões como desmatamento, despejo de esgotos e descargas químicas em Minas Gerais, que comporta  86 por cento da bacia, que levaram a essa situação de penúria.

A única saída do Rio Doce para o mar, atualmente, se restringe a um braço de areia a um quilômetro da foz original — que consiste em um avanço do mar rio adentro, mas pode ser fechado a qualquer momento, dependendo do regime das marés.

O quadro apocalíptico ganha força cada vez mais. Até os tradicionais pescadores locais que vivem do seu trabalho não conseguem mais partir pelo Rio Doce em direção ao mar, já que a nova desembocadura é rasa demais para a maioria dos barcos.

Os peixes também sumiram como que num passe de mágica. Outra espécie seriamente ameaçada é a tartaruga-gigante que sempre teve a praia onde deságua o Rio Doce — única área de desova em todo o litoral brasileiro —, como seu habitat natural.

Diante da gravidade da situação, é quase impossível enxergar luz no fim do túnel no que diz respeito à salvação do Rio Doce. É a resposta da natureza aos desatinos do homem.

"Dias piores virão, é o fim dos tempos" — diriam, cobertos de razão, meus saudosos vovozinhos. Confesso que nunca fui tão pessimista com relação ao futuro.
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