quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Acarajé de microondas


Por Marcos Niemeyer


>> Nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont, na área central do Rio, duas "baianas" armam diariamente o tabuleiro de acarajé, cujo produto trazem pronto de casa.

Detalhe: elas são morenas claras, magras, tem os cabelos alisados e pintados de amarelo-canário, usam calça jeans, camiseta com propaganda da operadora TIMhosa e óculos Ray Ban. Nascidas na ensolarada capital capixaba, Vitória, jamais colocaram os pés na terra de Caymmi e Mãe Menininha do Gantois. Bem diferentes, portanto, de uma legítima baiana.

A clientela delas, no entanto, é fiel: motoristas de táxi e de ônibus que fazem ponto no local, além de transeuntes das mais diversas procedências  a passar apressadamente  pela área. Um forno de microondas ligado ao fio de energia puxado do estacionamento ao lado serve para deixar os acarajés sempre quentinhos.

Cada quitute custa cinco reais. Simpáticas e falantes, dão risada caso sejam chamadas de "falsas baianas". Preferem ser chamadas de "baianas do acarajé a jato", conforme escrito na placa pendurada numa estaca ao lado.

De passagem pela área, resolvemos experimentar o produto. Não se compara a um legítimo acarajé feito com o amor e o capricho por uma legítima baiana nas ruas de Salvador. Mas também não chega a ser dos piores. São vistosos, dá pra deglutir tranquilamente sem que haja reação contrária do estômago. 

Já as verdadeiras baianas do acarajé foram reconhecidas como Patrimônio Imaterial da Bahia pelo governador Jaques Wagner e tiveram seu ofício incluso no livro de Registro Especial dos Saberes e Modos de Fazer do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

Atualmente é uma profissão regulamentada por decreto municipal de Salvador que cuida, inclusive, da padronização indumentária e do tabuleiro zelando principalmente pela higiene na preparação e manuseio do alimento. 

Com isso, as baianas do acarajé podem facilmente ser encontradas através do Mapa das Baianas que está em oyadigital , como resultado de uma parceria entre a Associação das Baianas de Acarajé (ABAM), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Instituto Palmares, projeto que trouxe mais visibilidade a essas importantes figuras da "Boa Terra".
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