segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O carioca é mais esperto


Por Marcos Niemeyer


>> Ao participar como convidado de um debate popular numa FM carioca na manhã desta segunda-feira (26) sobre a preferência musical do brasileiro nesses últimos tempos dissemos com toda convicção que o Rio de Janeiro continua a impor-se nesse aspecto, não permitindo — com exceção do abominável funk, muito embora impenetrável nos redutos mais exigentes do ponto de vista melódico — que os ritmos cretinos inventados pela mídia ditem a a regra em locais públicos e privados da Cidade Maravilhosa, como acontece no restante do Brasil.

A prova mais recente ocorreu no fim da tarde deste domingo (25), quando milhares de cariocas e turistas foram até o Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, na Zona Sul da cidade, prestigiar um espetáculo de extrema relevância promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e aberto ao público ao colocar no mesmo palco Quarteto em Cy, Os Cariocas, Paulo Rego, Wanda Sá, Baby do Brasil e Patricia Mellodi em homenagem aos 450 anos do Rio e, por extensão, à Bossa Nova.

Numa apresentação que durou pouco mais de duas horas, esses notáveis artistas — regidos pela batuta do maestro Amilson Godoy, da Orquestra Sinfônica Arte Viva — cantaram importantes clássicos do movimento criado no final da década e 50 por João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes recebendo calorosos aplausos dos milhares de nativos e turistas presentes ao evento.

E tudo isso sem pancadaria ou tiroteio, como vira e mexe ocorrem nos famigerados bailes funk e similares. Se fosse em qualquer outra parte do país, festividades em homenagem ao município de origem teriam recebido ensurdecedores trios elétricos, grupos de axé, pagode, o tal do "sertanejo universitário" e demais imbecilidades idênticas.

Aqui, porém, esses porras-loucas chamados de "artistas" pela podre mídia não costumam ter vez. O carioca é mesmo mais esperto (na preferência musical também). Com incontáveis teatros, espaços culturais e casas noturnas de boa qualidade, o Rio tem espetáculos artísticos insuspeitáveis 365 dias por ano. 

Não é sem motivo que a Cidade Maravilhosa jamais perde sua condição de centro artístico e cultural mais importante do país. Que outras festividades desse quilate continuem a ser promovidas e incentivadas no Parque Garota de Ipanema e onde mais houver espaço para a qualidade sonora.

Uma pena que o restante do Brasil não pense da mesma forma e deixe-se iludir pela canastrice brega-popularesca criada e anabolizada pelos barões midiáticos e seus capangas, especialistas em prestar o mais autêntico desserviço à cultura da nação.

Em julho deste ano, uma dupla breganeja atraiu mais de cinquenta mil pessoas ao parque de exposição de uma grande cidade do interior mineiro. Durante a apresentação, conhecido e bom cantor da MPB — também contratado pelos produtores do acontecimento, subiu ao palco (pasmem!) bem ao lado da tal dupla. Recebeu puta vaia da plateia, que aos gritos decretava: "Vai tomá no cu, vai tomá no cu...". Triste Brezyl varonil!
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As imagens que ilustram este artigo foram feitas pelo exímio fotógrafo/divulgador Mauro Mattos.
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