segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Exemplo de vida


Postado por Marcos Niemeyer


>> Foi com profundo pesar que recebemos neste fim de semana a notícia da morte do Sr. Ângelo Lacerda Marcelino, de 103 anos, pai do nosso estimado jornalista Jota Lacerda, amigo de grande jornadas nos bons tempos da Rádio Sociedade da Bahia, em Salvador.

Vítima de uma trombose, Seu Ângelo teve de amputar uma perna. Ainda ficou duas semanas respirando por aparelhos até que o corpo, já cansado pelo peso da idade, não reagiu mais.

"Vovô Ângelo", como era carinhosamente conhecido, nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, numa época em que o trem de ferro e o lombo do burro eram os principais meios de transporte por aquelas bandas. Mudou-se ainda jovem para Feira de Santana, a 100 quilômetros da capital, e neste município passou o restante de sua vida.

Ele deixa quatro filhos, seis netos e centenas de amigos. O sepultamento foi na tarde deste sábado (31), no Cemitério Municipal da cidade.

Em sua página no Facebook, Jota Lacerda, atualmente morando em Fortaleza, no Ceará, onde atua na crônica esportiva radiofônica, escreveu comovente relato sobre seu genitor. Palavras de marejar as retinas. Descanse em paz, Seu Ângelo!

Por Jota Lacerda 

"Eu vou demorar de morrer porque não sou imprudente". Ângelo Lacerda Marcelino (02/10/1912 - 30/10/2015). E foi assim. Papai viveu 103 anos e 28 dias, diga-se de passagem, com boa saúde, somente comprometida nos últimos dias da convivência entre nós. Não foi um milagre, foi prudência e genética.

Papai foi boêmio, mas não fumou, não bebeu e sempre evitou perder toda a noite. Fica a dica! Nada a reclamar, só agradecer a Deus pelo pai que tivemos, ou melhor, pelos pais que tivemos. Há 24 anos, D. Nicinha (Tia, como eu a chamava) nos deixou, antes de completar 60 anos.

Foi mais dolorido ainda pelas circunstâncias. Ainda na zona rural (no canavial), hoje Amélia Rodrigues/BA, em condições precárias, nada nos deixaram faltar.

Foram para a cidade grande (Feira de Santana), onde trabalharam (Tia costurava roupas em casa) só para o nosso bem-estar e educação. Papai era um homem além do tempo e da formação dele (apenas o primário).

Família humilde, morava distante do centro da cidade, mas sempre orientada para o estudo e a vida digna. Muito antes da lei contra a exploração do trabalho infantil, papai não permitia que prejudicássemos os estudos por causa do trabalho. 

Com necessidade de ajudar nas despesas da casa, aos 15 anos, eu fiz um curso de tipografia, fui premiado com uma vaga, de carteira assinada. Papai só me deixou trabalhar com o acordo de nunca deixar de estudar. 

Acordo feito e cumprido. Trabalhei, ajudei em casa e ganhei o mundo. Minhas três irmãs (Ana, Dinha e Ceci) seguiram suas vidas, mas cuidaram dele até agora. Tudo foi muito marcante.

A pressão para estudar (embaixo de sol e chuva) e a marcação serrada para não cair na "vadiagem" - como se dizia. Eu gostava de jogar bola, mas papai me perguntava se eu queria ser "capitão de areia" ou carroceiro. Então, me mandava estudar.

Oficialmente, além de maquinista de locomotiva, papai era mecânico de máquinas pesadas e operador de máquinas. Nas horas vagas, acreditem, era artesão. Trabalhava com arreios, cintos, selas e alguns apetrechos usados pelos vaqueiros.

Na folga, eu era tirado de minhas escapadas em direção ao campo de futebol para o ajudar em vários trabalhos manuais com o couro. Fiz de tudo: estudei, joguei bola, trabalhei, brinquei, dancei, baguncei, mas não saí do compasso. Aprendi a fugir das drogas ilícitas e a ter cuidado com as drogas lícitas.

É difícil, às vezes, conter o ímpeto e até cometer agressões, mas aprendi (com eles) que o respeito e a humildade é a chave de todas as portas da vida. Obrigado por tudo (em nome da família), descanse em paz, na Cidade Celestial, papai!