segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O rádio brasileiro à beira do abismo


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> O fim da MPB FM - 90.3 (1994/2017), surpreendentemente anunciado no dia primeiro de fevereiro último, reafirma não só a decadência da radiodifusão nacional, mas, sobretudo, o momento da mais absoluta fragilidade por que passa a verdadeira música brasileira.

A emissora carioca tocava, em modo automático, a música "Quem te viu, quem te vê", de Chico Buarque, na versão de Zeca Pagodinho. A canção foi interrompida e durou apenas um minuto e 21 segundos. Ato contínuo, a frequência no dial passou a ser ocupada pela maçante programação da Band News, que faz parte do Grupo Bandeirantes, dono da MPB FM. (quem tem saco pra ouvir noticia insistentemente repetida 24 horas por dia e entrevistas intermináveis?).

Especializada em resgatar e tocar o que ainda há de interessante na cultura musical do país, além de destacar novos talentos, a rádio carioca sucumbiu diante de sua inexpressiva audiência (o brasileiro, em sua maioria, só ouve o lixo sonoro atualmente) e da consequente falta de faturamento. Com isso, cerca de quarenta profissionais — entre jornalistas e radialistas, incluindo técnicos diversos que atuavam na emissora — foram sumariamente demitidos.

Rádios com o formato jornalístico — como é o caso da própria Band que agora ocupa a frequência da MPB FM —, da CBN e outras mais que tentam seguir o estilo, só conseguem respirar em função das minguadas verbas oficiais que recebem do governo e das prefeituras fazendo com que elas tornem-se meros porta-vozes de seus patrocinadores.

Em pouco mais de dois anos, pelo menos seis importantes emissoras de rádio foram fechadas ou vendidas para os espertalhões da fé em diferentes pontos do país. Apenas no Rio, as rádios Globo e CBN vêm demitindo dezenas de profissionais ultimamente.

A Tupi, por sua vez, não paga o salário dos funcionários há vários meses e nem tampouco o décimo-terceiro (deve dois anos do benefício). No mato sem cachorro, os trabalhadores da emissora estão em greve há  mais de um mês.

Para nós, profissionais da radiodifusão, todos esses golpes implacavelmente desferidos contra o setor, ameaçam varrer definitivamente do mapa aquele que já foi considerado o mais importante meio de comunicação da história. Por meio das redes sociais, ouvintes lamentaram o fim da MPB FM.

"Essa rádio é maravilhosa, não pode acabar", pediu um deles. "Vocês deixaram milhares de órfãos", disse outro internauta. "Única rádio que eu gostava de ouvir", escreveu mais um usuário na Web. “A MPB FM é uma grande contribuinte para a nossa cultura, valorizando a música e os artistas nacionais”, comentou a cantora Vanessa da Mata.
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