quarta-feira, 8 de março de 2017

Zé Hilário e sua publicidade volante


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> Um dos precursores da comunicação em Governador Valadares, cidade onde passamos nossa infância e parte da adolescência, o cidadão conhecido Zé Hilário tinha um carro de som (um Ford Custom), estiloso automóvel daquela época, no qual percorria diariamente as ruas centrais da cidade anunciando propaganda das lojas e notas de falecimento através de um alto-falante da idade da Pedra Lascada estrategicamente espetado em cima do veículo (às sete da noite, em ponto, ele retransmitia a "Voz do Brasil" diretamente da porta de sua casa num aparelho ligado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro).

A locução era feita ao vivo em parceria com seu filho mais velho, Tito Pinto. Certo dia, Hilário foi procurado por um forasteiro de passagem pela região que pagou-lhe para que o mesmo anunciasse em seu serviço volante a "morte" de um conhecido fazendeiro valadarense que morava lá pelas bandas da Pastoril, atualmente bairro São Pedro.

Como não podia ver dinheiro que já apressava o passo, Zé não pensou duas vezes e saiu anunciando o "falecimento" do distinto pelas vias centrais. A cidade ainda era pequena e todos ficavam do lado de fora de suas casas quando o carro passava comunicando a fúnebre notícia. Afinal, o fazendeiro era muito conhecido e ''bem-quisto" pelo povo.

Nesse meio tempo, um vizinho do "finado" que havia se encontrado com o distinto minutos antes, perto do campo do Democrata, o time de futebol local que disputa o Campeonato Mineiro, montou em sua bicicleta e foi atrás dele para avisá-lo que sua passagem pru "andar de cima" estava sendo anunciada no carro de som do Zé Hilário.

Cuspindo marimbondo pelo nariz, o cabra saiu à procura do veículo e o avistou em plena Avenida Minas Gerais, na altura do antigo Coreto noticiando em alto volume seu próprio "falecimento". Sem mais delongas, ordenou que o carro parasse e desprovido de dó ou piedade, cobriu o coitado do Zé na porrada.

O velho "speaker" só parou de apanhar com a chegada de um grupo de PMs, sob o comando do temido Coronel Pedro. Foram descobrir, depois, que tudo não tinha passado de vingança do intruso que pagou ao Zé pela façanha. É que o sujeito tinha uma velha desavença com o fazendeiro e planejou vingar do mesmo anunciando publicamente sua "morte". 

Versátil, Zé Hilário também era fotógrafo no mais autêntico estilo lambe-lambe. A loja dele ficava ao lado de sua própria moradia, no centro da cidade. O fato inusitado é que o Zé costumava pendurar de cabeça pra baixo na vitrine de frente pra rua a foto dos clientes que diziam que voltariam pra pagar "daqui a pouco" e sumiam no mapa.

De quebra, colocava uma tarja preta ao lado da fotografia dos inadimplentes com o seguinte aviso: "E atenção! Esses aqui não pagaram pelos serviços por mim prestados no ramo de fotografia. Amiúde, são mentirosos e caloteiros. Urge, pois, que a sociedade valadarense tenha muito cuidado com eles". Diariamente, uma multidão se aglomerava na porta do Zé Hilário pra conferir a cara dos maus pagadores.
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