segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Entre a beleza e o caos


Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com
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>> Na tarde do último sábado (16), um cabra "estiloso" & "bonitoso" passeava tranquilamente pela orla de Ipanema, na Zona Sul carioca, trajando paletó, gravata, calça social e sandálias Havaianas. E olha que sujeito não tinha cara de lunático.

Por outro lado, a incalculável quantidade de ambulantes pelas ruas do Rio é um desafio às autoridades (se é que assim merecem ser chamadas) e o mais autêntico reflexo do desemprego que atinge o país em números alarmantes.

Vende-se de tudo 24 horas por dia em qualquer lugar da cidade. Óculos, relógios, DVDs e outras bugigangas piratas são de perder de vista. Somente na área da Central do Brasil, ao lado do monumental edifício do Comando Militar do Leste, são mais de trezentas barracas e brechós ao ar livre.


Se o transeunte quiser experimentar uma roupa, há espaços improvisados para isso. Têm até produtos de sex shop nas bancas. Numa delas, há um enorme carayo de borracha estrategicamente pendurado no cabideiro. Segundo Fátima Fonseca, uma cearense de 42 anos e proprietária da banca, "o bicho é prá chamá a atenção da muierada e dos curioso".

A clientela é disputada aos gritos de "Vão chegá, fregueixxxx!". Barracas onde a higiene é palavra desconhecida oferecem PF, churrasquinho, lanches diversos, bebidas alcoólicas, etc. Prostitutas, travestis, mendigos, bêbados, trombadinhas, traficantes & o carayo a quatro bordejam pelo local sem serem incomodados.


A presença da polícia é algo raro, transformando o local numa das áreas mais violentas do Rio. A sujeira das ruas no entorno da Central é inacreditável. A catinga de merda & urina é de deixar urubu com pregador de roupa no nariz. O trânsito na região vive engarrafado noite e dia.

Há inúmeros hotéis de quinta categoria e um movimentadíssimo comércio tradicional com lojas das mais variadas, com destaque para bares, padarias, açougues e farmácias. A poluição sonora é outro agravante. Lojas e barracas utilizam enormes caixas de som em suas portas. A "música" que tocam não poderia ser pior: funk, forró eletrônico, arrocha e o tal do "sertanejo universitário".


Isso sem falar das dezenas de vendedoras de chip da Claro, Vivo, Oi e TIMhosa buzinando no escutador de novela do povo. E o pior: elas usam megafones portáteis para chamar a atenção dos milhares de transeuntes e testar a paciência dos mesmos  (com todo o respeito, já que as moças estão trabalhando honestamente). Quem já ouviu milhares de cigarras cantando impiedosamente numa ensolarada tarde de verão sabe do que este humílimo aprendiz de escrevinhador está falando.

De quebra, o calor é desumano por essas bandas. As praias andam tão cheias quanto o saco do brasileiro com o golpista governo TEMERoso. Aqueles que acham que o Nordeste é quente é porque não conhecem o Rio. De madrugada, nesta época do ano, quando os termômetros costumam dar uma uma trégua marcando 20 graus, o carioca treme de "frio".


Mas, apesar de todas as urucubacas (violência, carestia, trânsito caótico, sujeira pra todo lado, etc), a Cidade Maravilhosa continua com seus encantos mil. O Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, duas das principais atrações turísticas da antiga capital do Brasil, agora disputam a preferência de nativos e visitantes com a revitalizada região do Cais do Porto "Porto Maravilha" — onde é possível conhecer o Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio e o AquaRio, o maior aquário da América Latina.


Construído em uma área de 26 mil metros quadrados, possui quatro milhões e 500 mil litros de água salgada e oito mil animais marinhos de 350 espécies diferentes. Outra atração na região Portuária é a "Orla Conde", um passeio público que possui quatro quilômetros de extensão e se estende pelo centro da cidade, Gamboa e Saúde.

Lugar ideal para fazer caminhadas, andar de bicicleta e contemplar o gigante grafite (o maior do planeta) do famoso muralista brasileiro Eduardo Kobra, “Todos Somos Um” — no qual o artista retrata cinco rostos: um povo nativo de cada continente. A implantação do VLT — uma espécie de bonde moderno ligando a Rodoviária ao Aeroporto Santos Dumont — ficou o máximo, coisa de Primeiro Mundo.
Impossível, também, não citar os eventos artísticos que ocorrem 365 dias por ano nos incontáveis teatros e espaços culturais cariocas. Na noite do último sábado (15), por exemplo, A "Banda do Síndico", formada por músicos remanescentes da "Banda Vitória Régia", de Tim Maia, sacudiu o Teatro Rival, na Cinelândia. Espetáculo memorável com casa lotada.

O convidado especial do espetáculo foi o cantor Fábio Stella, importante parceiro musical de Tim Maia. O artista cantou, entre outras melodias, "Stella", "Velho Camarada" e "Até parece que foi sonho". O público aplaudiu de pé e pediu bis. Parecia que o espírito do "Síndico" tinha baixado de mala & cuia no pedaço.


O mega evento que acontece neste período na Cidade Maravilhosa, porém, é o "Rock in Rio", mas não é o mesmo de outrora. A atração anda completamente descaracterizada de suas raízes. Não será surpresa se a qualquer momento o tal do "sertanejo universitário" subir ao palco do evento e expulsar o que resta de bom por lá.
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