quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O coice da Mula sem Cabeça



Por Marcos Niemeyer
mniemeyer50@hotmail.com


>> Em nossa época de criança era comum acreditar nas lendas que os mais velhos contavam com "conhecimento de causa". E não faltavam assuntos, principalmente na casa dos avós.

Causos a exemplo do Lobisomem, da Mula sem Cabeça, do Saci Pererê, do Caboclinho D'água (um sujeito mulato e miudinho que ficava às margens dos rios e virava as embarcações, caso os pescadores não levassem sua oferenda preferida: (farofa de galinha caipira & fumo de rolo) davam arrepios na criançada que sequer tinha o direito de duvidar daquilo que os adultos contavam seriamente.

Tinha até um tal de Boto-cor-de-Rosa que "engravidava" as mulheres como que num passe de mágica. Bastava uma fêmea, por menos vistosa que fosse, se aproximar do bicho para a barriga da distinta crescer que nem rosca fermentada no tabuleiro embaixo da brasa.

Os coitados dos maridões viviam com a pulga atrás da orelha. Esses e outros casos de mil novecentos & antigamente relembramos neste domingo (5), durante visita que fizemos à casa dos sogros (Dona Luzia & Sêo Calixto — ambos com quase oitenta anos) na aprazível localidade de Tarumirim, localizada a setenta quilômetros de Governador Valadares, no Leste mineiro, via BR -116, no sentido Salvador-Rio de Janeiro.

Enquanto preparava a mesa estrategicamente instalada na varanda de frente para o quintal repleto de árvores, pássaros e hortaliças com sabores típicos da culinária mineira feitos no fogão a lenha, Dona Luzia Angélica contou um causo dos mais "assombrosos".

Segundo ela, o fato ocorreu lá pelos longícuos anos cinquenta quando ainda era mocinha e morava com seus pais numa cidadezinha por nome de Itanhomi, a uns vinte quilômetros de Tarumirim, onde, nesta última, em comum acordo com o marido, Sêo Calixto, escolheu para viver após o casal residir por quase trinta anos em São Paulo, cidade em que seus três filhos foram criados.

Era noite de lua cheia e uma Mula sem Cabeça surgiu inesperadamente soltando imensas bolas de fogo pelas orelhas e narinas na rua do pacato lugar. Apavorados, todos trataram de entrar em suas casas trancando portas e janelas. Ato contínuo, o bicho tentou entrar pela janela lateral de uma vizinha que tinha ficado aberta para "roubar" um bebê recém-nascido, que descansava feito anjo no berço preparado pela mãe.

Foi aí que o povo começou a gritar desesperadamente na tentativa de escorraçar a entidade fantasmagórica. Acuada, a Mula sem Cabeça relinchou parecendo que pegava fogo e sumiu na brenha da mata mais próxima. "Antes, porém, deu um baita dum coice na porta da casa e a marca desse coice tá lá até hoje", conta Dona Luzia com ar de seriedade. 

DETALHE IMPORTANTE

Aprendemos desde a infância que nomes próprios devem ser escritos com iniciais maiúsculas. Também está escrito no Fomulário Ortográfico que devemos escrever com iniciais maiúsculas os nomes de seres mitológicos, o que é uma redundância, pois esses nomes são próprios e estão incluídos na regra maior dos nomes próprios.

Apesar disso, estranhamente, alguns gramáticos recomendam que se escreva os nomes de entidades do folclore brasileiro em minúsculas. Quer dizer: o nome dos seres da mitologia grega se escreve com iniciais maiúsculas (Minotauro, Cérbero, Esfinge, etc).

Mas os coitados do Saci Pererê, Lobisomem, Mula sem Cabeça e outros menos cotados, pertencem a uma mitologia das classes baixas de um país subdesenvolvido e por isso não merecem a deferência de uma inicial maiúscula. De minha parte, continuarei escrevinhando o nome desses indefectíveis bichos do folclore brasileiro com letras maiúsculas.
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